Total de visualizações de página

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Tão tarde para ouvir sua voz

        A pior coisa que eu poderia ter dito pra minha mãe é que voltaria logo. Quando cheguei em casa no outro dia cedo a encontrei quase enfartada de preocupação. Foi tão estranho acordar, levantar e ir embora quase sem nenhuma palavra. Meu primeiro amor nem se levantou. Não houve beijo de despedida e da pior maneira saí da casa dizendo apenas um frio e seco tchau.
       Quando o fim de semana acabou e voltei pro trabalho me perguntava o que havia acontecido? O que eu tinha feito de errado ou porque tudo caminhou para aquela tragédia? Quanto mais eu pensava, mais desesperado ficava por ele não me ligar. Simplesmente sumiu. Uma amiga que trabalhava comigo percebeu minha melancolia e perguntou o que havia acontecido. Confiava nela e acabei cedendo às indiretas que ela jogava. Contei que era gay. Abri meu coração na esperança de ter uma outra pessoa que pudesse me ouvir e tentar me fazer entender as complexidades do amor.
        Se tivéssemos transado poderia dizer que ele só queria meu corpo. Mas ainda continuava o mesmo virgem de sempre. Se estivesse em semana de provas na faculdade teria bombado em todas as matérias. Não conseguia me concentrar em nada além dele. Queria aquele corpo pra mim, em mim, dentro de mim. Me contaminando dele...
        Me descobri apaixonado. Sentindo saudade de momentos bons que eu realmente havia sentido e vivido. Estava feliz por ser gay. Estava feliz por ter alguém. Mas extremamente preocupado com esse alguém e com seus sentimentos por mim. E nada dele me ligar...
       Resolvi então, eu mesmo procurá-lo. O problema é que depois do trabalho ía direto estudar e chegava tarde em casa. Primeiro toque. Meu coração disparou e não sei se era aflição por talvez acordar a casa toda ou ansiedade de ouvir novamente sua voz. Segundo toque. Estava mais ansioso que aflito. Terceiro toque e nada de alguém atender. Voltei a sentir a aflição tomar conta de mim. No quarto toque, barulho de telefone sendo atendido. Minhas pernas tremeram quando ouvi sua voz. Sussurrei um boa noite sem perceber que na verdade eu poderia falar alto. E imediatamente após responder meu cumprimento perguntou se eu não achava que estava tarde para ligar pra ele. Não foi rude. Mas me deu um soco na cara por telepatia. Uma semana depois de tudo que aconteceu. Uma semana inteira sem me procurar, sem dizer se estava vivo. Parecendo que esquecera de tudo ou fingindo não lembrar. Tentando esquecer... Sei lá. Sei que pra ele, naquele momento era tarde pra ouvir minha voz... Pedi desculpas por incomodar e disse que estava com saudade. Não sei se o silêncio que se seguiu foi porque eu realmente estava incomodando ou se ele estava dormindo segurando o telefone. Disse que ligaria pra ele outra hora, dei boa noite e desliguei. Fui dormir destruído!

sábado, 23 de julho de 2011

Um encontro romântico ( Final )

        Nós ainda ficamos um bom tempo entre carícias e beijos apaixonadamente carinhosos. Olhares e gestos indecifráveis e totalmente comprometedores. Estava apaixonado demais por ele. Quando imaginaria que tudo aquilo aconteceria tão rápido e já estaríamos ali, nas preliminares de uma noite que marcaria minha vida para sempre? Ainda estávamos no sofá, minha cabeça encostada em seu ombro sentindo o perfume leve, gostoso e excitante de sua pele. Queria ficar ali pra sempre e que aquela noite nunca acabasse. Devagar, meu primeiro amor me abraçou, me acolheu junto ao peito e deu um beijo em minha cabeça. Como poderia esquecer um dia o que ele dissera naquele momento? "Estou gostando muito de estar com você". Instantes mais tarde ele levantou-se e me convidou para ir pro quarto. Esticou a mão e quando aceitei ele sorriu.
       A luz permaneceu apagada e apenas um pequeno feixe de luz vindo da televisão ligada na sala invadia o lugar. Ele começou a mexer no aparelho de som ao lado da cama enquanto eu comecei a ser dominado novamente pelo pânico. Senti medo outra vez do desconhecido. Não sabia o que falar, o que ou como fazer? Precisava apenas me segurar pra não falar besteira e parecer idiota. Isso eu sabia. De repente uma música começou a tocar baixinho como se estivesse abençoando nosso encontro. No mesmo instante percebi que aquela canção tão doce seria a trilha sonora do nosso amor. Tocava tribalistas.

        Procurei relaxar. Logo que deitei na cama ele deitou-se por cima de mim. Sempre me beijando delicadamente. A música, o seu cheiro, o beijo, tudo me hipnotizava. Lentamente fomos terminando de nos despir. Quando o vi pela primeira vez de cueca delirei. O toque da pele, os músculos, todo seu corpo junto ao meu incendiava. Meus hormônios explodiam. Fiquei muito excitado. E aquele volume tão maravilhoso dentro de sua cueca começou a parecer maior, como se pedisse para sair dali. Dominados pelo desejo pelo outro, tirei sua cueca e logo fiquei também sem a minha. E que delícia era sentir o corpo daquele homem. Quente e macio. Agora era ele que estava deitado e enquanto beijava seu corpo, fui descendo até sentir seu pênis rijo encostar em meu queixo. Beijei-o e sem nenhuma censura ou medo, fiz sexo oral nele. Não me importava se fazia direito, apenas curtia o momento e sabia que ele também estava sentindo prazer. Ele também me beijou, me lambeu, me chupou e me fez sentir absolutamente amado. E que delícia era aquela sensação! Outra vez tomei a iniciativa de explorar outras parte de seu corpo. Passei a acaricia-lo, mas foi diferente. Dessa vez foi ele que enrijeceu todo o corpo. Ficou tenso e tentei ser mais delicado ao tocá-lo. Não senti muito progresso com isso. Nós dois estávamos nervosos. Então o abracei e depois de um beijo profundo perguntei se poderia penetrá-lo. A resposta veio rápida e negativa. Se esquivou um pouco dizendo que não tinha levado camisinha. Mas eu fora esperto. Expliquei logo que levara uma comigo e quando fui pegá-la ele me segurou dizendo que não queria. Não naquele momento. Perguntei se queria penetrar em mim e veio mais uma negativa. Percebi que não deveria mais insistir. Fiquei frustrado, mas entendi que pra que tudo rolasse, nós tinhamos que estar mais que apaixonados. Era preciso tranquilidade, confiança e amor.
        O clima esfriou. Não houve sexo, não houve penetração. Poucos beijos e apenas um abraço. Adormeci enlaçado por ele. Sentindo sua respiração ofegante tranquilizar devagar. Não sei exatamnete quanto tempo dormi até ele me acordar e chamar para um outro quarto. O cd havia parado de tocar e ainda meio sonado o acompanhei. Não entendi direito a razão, simplesmente o segui obediente. No outro quarto não havia rádio, mas era também muito confortável. Deitamos na grande cama de casal e permanecemos em silêncio. Nem um toque, nem um beijo e milhões de pensamentos atropelando uns aos outros na mente confusa. Me senti rejeitado e não conseguia mais uma aproximação. Muito tempo depois, acordados e praticamente imóveis, comecei a imaginar se já estaria perto de amanhecer. Como seria ao acordar, ou quando desse a hora de ir embora? Acho que imaginei tão alto que ele conseguiu ouvir. Fez leves carícias em meus dedos antes de segurar minha mão e me abraçar novamente. Adormeci logo em seguida.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Um encontro romântico ( Parte II )

     E lá estava eu. Tão travado que mal conseguia me mover. Tão nervoso que mal conseguia falar. Tão ansioso que mal conseguia pensar. Minha mente era um turbilhão, mas não sabia se a confusão mental era por causa das batidas confusas do coração ou se por causa da presença simples e angelical do meu primeiro amor ali na minha frente, me olhando com aquele lindo par de olhos verdes que realmente tonteava. Uma mistura de emoções únicas e tão diferentes... Será que eu amava aquele cara? Tava me fazendo bem. Outra vez eu estava em uma casa estranha, experimentando também a desconhecida liberdade de poder fazer coisas com ele que até então eram apenas desejos e vontades.
     Ele me olhava com carinho. Eu precisava me soltar logo. Não sabia como agir. Faltou assunto. Ele tentava conduzir a situação que devagar caminhava para o constragedor e incômodo. Falava algo bobo ou completamente sem sentido e não encontrava continuidade no meu silêncio envergonhado. O que eu poderia fazer? Falar sobre a decoração da casa ou partir pra cima dele feito um tarado com tesão? Eu não sabia. A verdade é que eu estava tão encantado com os acontecimentos que simplesmente confundia aquele garoto cheio de neuras, nervosismo e sentimentos com o príncipe encantado dos meus sonhos. Ele tinha que saber o que fazer e como fazer. Não pensei que talvez ele estivesse tão sem jeito quanto eu.
     Depois de inúmeras tentativas frustradas de iniciar uma conversa mais picante ou simplemente tão longa que completasse um minuto de diálogo, eu cansei. Resolvi bancar o tarado. Tirei coragem não sei de onde e ataquei. Como aquele dia que nos beijamos pela primeira vez eu o agarrei e beijei novamente. E também como antes ele se esquivou um pouco, mas dessa vez não totalmente, apenas como quem diz "calma, ainda temos a noite toda". E isso me tranquilizou um pouco. Muito pouco na verdade. Pra ser bem sincero, quase nada, mas tentei acreditar que a situação estava sob controle. Sob o meu controle.
     Nos beijávamos na sala enquanto a tv permanecia ligada em um canal qualquer num volume quase inaudível. Me sentia amado, livre pra curtir um outro homem sem censuras, sem receios. Sem pensar em pecados. Deitamos no sofá. Eu estava por cima. Se o dono da casa aparecesse sei lá de onde naquele momento a vítima claramente seria ele. E eu o perigoso estuprador de garotos lindos. A paixão de repente ficou recíproca. Me abraçou forte e disse que estava feliz. Do sofá ao céu! Estava feliz estando comigo! Aquilo era mesmo real? Ficamos outra vez calados. Abraçados e quietos, mas dessa vez era disso que o momento precisava para tornar-se quase insuportavelmente agradável. Quem quebrou o silêncio foi ele ao dizer que conseguia sentir meu coração batendo acelerado enconstado em seu peito.
     Ele era gostoso, beijava gostoso. Me dava tesão. E quando fiquei outra vez atiradinho, comecei a tirar sua camiseta. Outra vez ele me repeliu dizendo que mesmo com cortinas fechadas era melhor fechar a janela. Alguém poderia passar na rua e ver algo. Controlei minha decepção e tenho certeza que ele nem a notou. Voltou para o sofá, me abraçou e beijou delicadamente. Antes que pudesse começar outro agarramento, levantou-se e foi até a cozinha. Pensei duas coisas ao ficar sozinho na sala. Ou ele voltaria e diria que era melhor eu ir embora porque o dono da casa chegaria logo ou apareceria totalmente pelado e excitado na minha frente num convite irrecusável a fazer sexo oral nele. Nem preciso confessar que a segunda opção me animava mais, porém, bem rápido ele apareceu de volta. Totalmente vestido e com uma caixa de chocolates nas mãos. Naquele momento eu percebi que enquanto meus hormônios explodiam dentro de mim ele queria simplesmente ir devagar. Consegui enxergar minha euforia exagerada e ao encará-lo sorridente estendendo os chocolates pra mim pensei, decidi, e comecei a encarar aquele momento com sabedoria sexual. Mesmo sem fazer idéia de que merda era essa...

domingo, 3 de julho de 2011

Um encontro romântico ( Parte I )

     Odeio contabilidade. Descobri isso no primeiro semestre da faculdade de administração. Eu não conseguia compreender como aquela bagunça de números que debitava de um lugar e obrigatoriamente tinha que ser creditado em outro diferente fazia sentido. Como pode existir pessoas que entenda e goste daquilo tudo?
     Na biblioteca outras pessoas estudavam, liam, ou apenas passavam os olhos por algum livro, jornal ou revista qualquer. Passando o tempo, pensando em problemas profissionais, familiares, no que fazer durante o fim de semana ou alguma outra coisa que eu não fazia idéia, assim como a contabilidade. O maldito balanço patrimonial precisava bater para que eu pudesse apresentá-lo na última aula daquele mesmo dia e não mostrava nenhum sinal de clareza de informações até o momento que meu celular vibrou e me libertou daquela tortura momentanea. Atendi ainda meio incrédulo e logo imediatamente vibrei ao ler no visor e ouvir a voz do meu primeiro amor.
     Por causa do trabalho e da faculdade durante a semana eu praticamente não tinha tempo para vê-lo. E isso me fazia sofrer desesperadamente com saudade, vontade de beijá-lo outra vez. Só conseguia-mos nos ver nos fins de semana. Ele não estava trabalhando. Não estava estudando. Jogava vôlei aos sábados e ia à missa todos os domingos. Apesar dos nossos horários, não nos falávamos muito por celular. Na verdade era sempre eu que ligava primeiro na casa dele, por isso o tão agradável susto.
     O motivo da ligação era para marcar um encontro. Não entendi direito na hora, mas ele dormiria um fim de semana na casa de um amigo que viajaria e não queria deixar tudo sozinho. E me chamou pra também não ficar sozinho no lugar. Era uma oportunidade de ficarmos juntos e com um pouco mais de intimidade. Aceitei imediatamente e já passei a imaginar que desculpa daria aos meus pais quando chegasse e logo saísse para curtir aquela lua-de-mel. Não consegui mais me concentrar no exercício nem na história que falaria em casa. Acabei tão ansioso que sequer assisti a última aula de contabilidade.
    Depois do banho e de engolir qualquer coisa pra disfarçar a fome, saí correndo para meu primeiro encontro romântico. Disse apenas que voltaria logo, quando minha mãe questionou minha saída noturna tão estranha. Para o que talvez fosse a noite mais feliz da minha vida, ou a minha primeira transa, ou a primeira vez que faria um sexo selvagem ou realizaria algum fetiche, ou faria amor de maneira sútil e amorosa, ou talvez uma noite em que nem rolasse sexo. Se rolasse será que doiría muito? Quem seria penetrado? Sem proteção? Não... Levei uma camisinha. Será que meu primeiro amor era carinhoso na transa? Será que ele era só ativo, só passivo, os dois? O pior daquele misto de sensações e ansiedades era perceber que mesmo odiando a maldita contabilidade ela mais uma vez me atormentava... Mas dessa vez eu precisava fazer meu balanço bater!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Só desejava o amor dos homens pra bem amar



   "Pensa como um poeta e fala como tal
   Não pode dar o amor que preciso
   Se pra sempre pensar como um poeta
   Eternamente como um poeta ficará só"

                                           Alegre Menina
Sorriso
Saudade
Vazio
Fim
Sonho
Luz
Cruz
Mentira
Dor
Felicidade

                                                           Eternamente como um poeta ficarei só

terça-feira, 28 de junho de 2011

Na casa do meu amigo gay

     Não sabia se estava namorando. Mas já tinha certeza que era gay e estava adorando ser assim. Um mundo tão complexo, tão difícil e distante de repente era o meu mundo. Estava tão encantado que queria gritar minha felicidade aos quatro cantos. Eu conhecia novas pessoas, fazia novos grandes amigos e me apaixonava ainda mais pelo meu primeiro amor. Como era gostoso aquela felicidade correspondida. Nos dias que se passaram eu deixei de me descobrir e me concentrei em explorar a vida de um gay. Um gay que aceitava sua orientação mesmo ainda temendo um pouco certa exposição. Queria conhecer outros garotos gays, queria conhecer lésbicas... Queria desbravar.
     A casa que foi cinema, cenário para o início daquela minha linda história passou a ser o local onde podia vê-lo sem medos ou neuras. Lá, éramos tão aceitos por todos. Tão bem recebidos... Seria maravilhoso se minha família me entendesse como as pessoas ali se entendiam e pudéssemos conviver sem segredos, sem dramas... Em harmonia.
     Meu primeiro amigo gay assumido era o dono da casa e nos acolhia sempre muito bem. Ele sabia que estávamos ali também porque era o único canto para meu primeiro amor e eu ficarmos juntos. Estávamos começando a formar um pequeno grupo de amigos. De grandes amigos. Era isso que achávamos. Conversas longas que viravam a madrugada, risadas deliciosas, piadas e muitas besteiras faladas regavam nossos encontros. Cantávamos e falávamos sobre os filmes e músicas preferidas por cada um. Defendíamos ídolos das criticas e ofensas propositais dos outros, nos divertíamos vendo a coleção de infinitas revistas e pôsteres da Sandy do meu primeiro amigo gay assumido, falávamos de homens bonitos, musculosos, gostosos e afins, falávamos bem e mal dos outros e como poderia esquecer da pipoca com café?! (Risada) Era bom demais estar com pessoas iguais a mim. Iguais, porém mais avançadas. Eu não conhecia nada mais que aquilo. Aquelas conversas eram tudo que conhecia do mundo gay. Por mais curiosidade que tivesse com as histórias de vida deles (ambos eram 3 e 4 anos mais velhos que eu), temia passar por algo parecido. Achava que seria dar passos rápidos demais. Como falar de ex-namorados se eu estava beijando um garoto que nem sabia se era ou não meu primeiro namorado? Como falar de sexo se era tão virgem quanto minha irmã de nove anos? Se pudesse até preferiria me trancar e viver apenas aquilo com que havia me deparado até então. Todas aquelas coisas maravilhosas. Aquela liberdade de poder ser, pensar e falar o que eu era... Um garoto apaixonado. E desesperado por não conseguir conter dentro de si tanto vislumbramento...

domingo, 26 de junho de 2011

Eu não quero voltar sozinho


A descoberta natural da sexualidade da maneira que realmente acontece na vida. Um olhar simples e delicado para o amor homossexual.




Desde a estréia no 3º Festival Paulínia de cinema, Eu Não Quero Voltar Sozinho foi exibido em 21 festivais onde recebeu 27 prêmios.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Para Wong Foo, Obrigada por tudo! Julie Newmar

   Recebi o convite para ir até a casa de um conhecido ver um filme. Completamente sem explicação e inaceitável se esse conhecido não fosse um dos que estava no jogo aquele dia. E o melhor é que o primeiro amor da minha vida estaria lá também. Estava na cara que havia algo premeditado por trás desse convite tão estranho. E fui chamado para o filme depois da missa num domingo chato e típico em minha rotina. Não que a missa fosse normal pra mim. Não costumava frequentá-la. Não tinha paciência pra isso. Mas eu estava lá pecando. Procurando um outro Deus. Aquele que me deixou perdido em pensamentos desde que o conhecera e descobrira que era frequentador do evento dominical.
   Achei que haveria mais pessoas para ver o filme e me assustei quando vi que o dono da casa chamara apenas duas. Meu primeiro amor e eu. E tive certeza que algo estava combinado. Foi um susto, mas foi realmente fantástico ter a certeza que eram gays. Eram diferentes. Assumidos e viviam muito bem com isso. Eu estava encantado! As brincadeiras, comentários e idéias me maravilhavam! Não podia ser tão ruim ser gay. Pareciam felizes e eu queria muito ser igual a eles. A diferença é que além de querer ser como eles eu estava apaixonado por um deles!
   A conversa estava muito boa, já havia me divertido muito e a hora estava passando até rápido. Me perguntava quando assistiríamos ao filme. Será que fora apenas pretexto para que eu fosse até lá? Estava com certeza absoluta que era exatamente o que acontecera e isso me deixava ainda mais assustado. O medo do desconhecido e do que poderiam ter tramado.
   Quando resolvemos ver o filme, nada mais gay que assistir "Para Wong Foo, Obrigada por tudo! Julie Newmar". Era minha primeira vez também vendo, enquanto eles já haviam perdido a conta.
   Toda a experiência que o meu primeiro amor aparentava ter me deixou completamente travado. Eu não conhecia aquele mundo. Não sabia como agir, o que falar exatamente e principalmente se deveria ou conseguiria tomar algum tipo de iniciativa para algo que era incerto na minha cabeça se iria ou não acontecer. Turbilhão de informações e pensamentos. Estava confuso e com muito, muito medo. Nunca havia beijado um homem. Nunca havia sentido aquilo com tanta intensidade. Nunca houvera oportunidade de sentir. E tudo ainda se complicava quando percebi que esperavam que eu tomasse a iniciativa. Não iria agarrar um outro cara, praticamente desconhecido, numa casa que sequer sabia quantos cômodos tinha ou principalmente se era o que ele realmente esperava que eu fizesse. Estava me sentindo covarde e não poderia perder uma oportunidade tão única. O filme acabou e fui instantaneamente dominado pelo pânico. Hora de ir embora? Pedi um copo com água para o dono da casa e quando fiquei sozinho com meu primeiro amor na sala, fiz algo que achei que jamais conseguiria. Beijei-o. Um beijo simples, rápido. Um beijo tolo, mas profundo e com um significado infinitamente especial pra mim naquele momento. Ele se esquivou um pouco, mas era isso que desejava. Pude perceber quando nos olhamos assustados e ficamos alguns segundos em silêncio. Nos analisando, nos descobrindo, nos investigando. Não consigo lembrar o gosto daquele beijo. Sei apenas que era o que ambos queríamos. Uma chance de ter e ser, não o primeiro amor, mas o grande amor na vida de alguém!

terça-feira, 15 de março de 2011

Quando acontece o primeiro amor

   Quando eu conheci aquele que por um tempo seria o primeiro, maior e único amor da minha vida, ser gay ainda não era normal. Assumir-se bissexual também não estava na moda. Sequer entendia o motivo para eu sentir aquelas coisas por um homem, aceitar estava longe. Ter orgulho era impossível! Foi por acaso, mas aquela beleza me chamou muito a atenção. Corpo bonito, rosto bonito, olhos perfeitos... Estava jogando bola na rua e nunca iria supor que aquele cara tão gostoso também curtia homem. O amigo me chamou pra jogar com eles e eu não conseguiria dizer não. Foi uma tarde gostosa. Eu me diverti, mesmo tenso e nervoso só de estar perto dele. Meu Deus, como eu poderia sonhar com aquele cara? Não havia chance nenhuma. Impossível e ridículo achar que poderia acontecer algo. Não podia, não era certo. Pra cada pensamento de recusa que tinha, um de tentação vinha imediatamente em minha mente só de olhar aqueles braços fortes, as pernas tão grossas, bonitas, aquele volume que se destacava levemente através da bermuda, a bunda tão perfeita! Ele todo era perfeito!
    Final da tarde, fim de jogo, cansaço e tesão. Quatro pessoas sentadas na beira da calçada fazendo nada e pensando em sexo, erotismo e pornografia a cada olhar. Jogo de sedução, conquista... E eu tão idiota, me recriminando por tudo. Ao mesmo tempo em que precisava ir embora, queria ficar. Queria beijar cada parte daquele corpo que me excitava. Queria lamber, chupar, morder. Estava ficando louco em silêncio. Imaginava-o se despindo pra mim. Se exibindo pra mim. E precisava ir embora. Estava ficando tarde. Aquele cara conseguia mexer comigo. Estava conseguindo me hipnotizar. E de repente seus olhos encaram os meus. Loucura! Não podia ser verdade. Ele me faz perguntas estranhas, puxa assunto. Devia estar pensando "tem um viadinho ridículo me olhando, vou zuar com a cara dele". Ou estaria tentando me sacanear e gritar pra rua toda ouvir que a bichona estava dando em cima dele. Gelei, tremi, mas consegui me manter aparentemente firme. Minha idade? Onde moro? Se estudo? Namoro? São perguntas banais? E foi impressão minha ou vi um certo interesse naquele olhar tão perfeito? Ele não me perguntou se eu era gay, mas li essa pergunta em seu semblante enquanto me encarava. Ele me olhava, me analisava. Talvez ele me desejasse. Talvez com ele eu tivesse a chance de cometer aquele pecado tão terrível e tão excitante. Éramos gays sim e poderíamos transar feito loucos como eu sonhava ou poderia não acontecer nada, o que seria mais sensato. Mas eu queria. Precisava daquele cara. Precisava conhecer tudo aquilo que me causava tanto medo. Aquele garoto tão lindo estava prestes a ser o primeiro amor da minha vida. Eu precisava experimentar na prática o que era ser gay.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A homossexualidade

       Eu sabia que era gay. Sempre soube. Fingir atração por garotas era atuar, representar. Ficar com uma garota era raro. Mas apaixonar-se por uma era extremamente fácil. Meu coração se iludia, sofria, doía.
       O que estava por trás de todos esses sentimentos tão inocentes até pode ser entendido e explicado hoje, mas na época parecia simples e era tão complexo. Como conseguir não se sentir tão atraído por aquele garoto tão lindo e pegador, controlar isso e ainda tentar acreditar que era pura loucura? Ou simplesmente "coisa da sua cabeça" ou talvez "pecado"... Como ser capaz de responder tudo isso na confusão que a cabeça se encontra? No tubilhão de emoções, sentimentos e sensações com a dúvida e incerteza dessa falha de nome feio, perigoso e temido, a homossexualidade vai te dominando. Ou você vai dominando-a, não sei. Mas começa a haver um casamento entre ambos. Não de aceitação. Um casamento que une desistência em relutar, cansaço mental na guerra que existia entre sua mente e os pensamentos sujos. Essa aproximação é inevitável. Se haverá divórcio, quem poderá dizer? É até desejável, mas o desejo por outro homem se torna ainda mais desejável. Mais inebriante. E por um breve momento o casamento deixa de ser casamento e se torna um caso extra conjugal. Você é heterossexual, mas quando os pensamentos te dominam se entrega a eles seja errado ou não. Que se dane! Sente prazer e depois volta a ser hetero. Quantas vezes me masturbei pensando em homem? Muitas. Pensando em meninas? Nenhuma. Inúmeras tentativas falhas e vãs. Eu sabia que era gay. Mas não sabia como lidar com isso.