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quarta-feira, 16 de março de 2011

Para Wong Foo, Obrigada por tudo! Julie Newmar

   Recebi o convite para ir até a casa de um conhecido ver um filme. Completamente sem explicação e inaceitável se esse conhecido não fosse um dos que estava no jogo aquele dia. E o melhor é que o primeiro amor da minha vida estaria lá também. Estava na cara que havia algo premeditado por trás desse convite tão estranho. E fui chamado para o filme depois da missa num domingo chato e típico em minha rotina. Não que a missa fosse normal pra mim. Não costumava frequentá-la. Não tinha paciência pra isso. Mas eu estava lá pecando. Procurando um outro Deus. Aquele que me deixou perdido em pensamentos desde que o conhecera e descobrira que era frequentador do evento dominical.
   Achei que haveria mais pessoas para ver o filme e me assustei quando vi que o dono da casa chamara apenas duas. Meu primeiro amor e eu. E tive certeza que algo estava combinado. Foi um susto, mas foi realmente fantástico ter a certeza que eram gays. Eram diferentes. Assumidos e viviam muito bem com isso. Eu estava encantado! As brincadeiras, comentários e idéias me maravilhavam! Não podia ser tão ruim ser gay. Pareciam felizes e eu queria muito ser igual a eles. A diferença é que além de querer ser como eles eu estava apaixonado por um deles!
   A conversa estava muito boa, já havia me divertido muito e a hora estava passando até rápido. Me perguntava quando assistiríamos ao filme. Será que fora apenas pretexto para que eu fosse até lá? Estava com certeza absoluta que era exatamente o que acontecera e isso me deixava ainda mais assustado. O medo do desconhecido e do que poderiam ter tramado.
   Quando resolvemos ver o filme, nada mais gay que assistir "Para Wong Foo, Obrigada por tudo! Julie Newmar". Era minha primeira vez também vendo, enquanto eles já haviam perdido a conta.
   Toda a experiência que o meu primeiro amor aparentava ter me deixou completamente travado. Eu não conhecia aquele mundo. Não sabia como agir, o que falar exatamente e principalmente se deveria ou conseguiria tomar algum tipo de iniciativa para algo que era incerto na minha cabeça se iria ou não acontecer. Turbilhão de informações e pensamentos. Estava confuso e com muito, muito medo. Nunca havia beijado um homem. Nunca havia sentido aquilo com tanta intensidade. Nunca houvera oportunidade de sentir. E tudo ainda se complicava quando percebi que esperavam que eu tomasse a iniciativa. Não iria agarrar um outro cara, praticamente desconhecido, numa casa que sequer sabia quantos cômodos tinha ou principalmente se era o que ele realmente esperava que eu fizesse. Estava me sentindo covarde e não poderia perder uma oportunidade tão única. O filme acabou e fui instantaneamente dominado pelo pânico. Hora de ir embora? Pedi um copo com água para o dono da casa e quando fiquei sozinho com meu primeiro amor na sala, fiz algo que achei que jamais conseguiria. Beijei-o. Um beijo simples, rápido. Um beijo tolo, mas profundo e com um significado infinitamente especial pra mim naquele momento. Ele se esquivou um pouco, mas era isso que desejava. Pude perceber quando nos olhamos assustados e ficamos alguns segundos em silêncio. Nos analisando, nos descobrindo, nos investigando. Não consigo lembrar o gosto daquele beijo. Sei apenas que era o que ambos queríamos. Uma chance de ter e ser, não o primeiro amor, mas o grande amor na vida de alguém!

terça-feira, 15 de março de 2011

Quando acontece o primeiro amor

   Quando eu conheci aquele que por um tempo seria o primeiro, maior e único amor da minha vida, ser gay ainda não era normal. Assumir-se bissexual também não estava na moda. Sequer entendia o motivo para eu sentir aquelas coisas por um homem, aceitar estava longe. Ter orgulho era impossível! Foi por acaso, mas aquela beleza me chamou muito a atenção. Corpo bonito, rosto bonito, olhos perfeitos... Estava jogando bola na rua e nunca iria supor que aquele cara tão gostoso também curtia homem. O amigo me chamou pra jogar com eles e eu não conseguiria dizer não. Foi uma tarde gostosa. Eu me diverti, mesmo tenso e nervoso só de estar perto dele. Meu Deus, como eu poderia sonhar com aquele cara? Não havia chance nenhuma. Impossível e ridículo achar que poderia acontecer algo. Não podia, não era certo. Pra cada pensamento de recusa que tinha, um de tentação vinha imediatamente em minha mente só de olhar aqueles braços fortes, as pernas tão grossas, bonitas, aquele volume que se destacava levemente através da bermuda, a bunda tão perfeita! Ele todo era perfeito!
    Final da tarde, fim de jogo, cansaço e tesão. Quatro pessoas sentadas na beira da calçada fazendo nada e pensando em sexo, erotismo e pornografia a cada olhar. Jogo de sedução, conquista... E eu tão idiota, me recriminando por tudo. Ao mesmo tempo em que precisava ir embora, queria ficar. Queria beijar cada parte daquele corpo que me excitava. Queria lamber, chupar, morder. Estava ficando louco em silêncio. Imaginava-o se despindo pra mim. Se exibindo pra mim. E precisava ir embora. Estava ficando tarde. Aquele cara conseguia mexer comigo. Estava conseguindo me hipnotizar. E de repente seus olhos encaram os meus. Loucura! Não podia ser verdade. Ele me faz perguntas estranhas, puxa assunto. Devia estar pensando "tem um viadinho ridículo me olhando, vou zuar com a cara dele". Ou estaria tentando me sacanear e gritar pra rua toda ouvir que a bichona estava dando em cima dele. Gelei, tremi, mas consegui me manter aparentemente firme. Minha idade? Onde moro? Se estudo? Namoro? São perguntas banais? E foi impressão minha ou vi um certo interesse naquele olhar tão perfeito? Ele não me perguntou se eu era gay, mas li essa pergunta em seu semblante enquanto me encarava. Ele me olhava, me analisava. Talvez ele me desejasse. Talvez com ele eu tivesse a chance de cometer aquele pecado tão terrível e tão excitante. Éramos gays sim e poderíamos transar feito loucos como eu sonhava ou poderia não acontecer nada, o que seria mais sensato. Mas eu queria. Precisava daquele cara. Precisava conhecer tudo aquilo que me causava tanto medo. Aquele garoto tão lindo estava prestes a ser o primeiro amor da minha vida. Eu precisava experimentar na prática o que era ser gay.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A homossexualidade

       Eu sabia que era gay. Sempre soube. Fingir atração por garotas era atuar, representar. Ficar com uma garota era raro. Mas apaixonar-se por uma era extremamente fácil. Meu coração se iludia, sofria, doía.
       O que estava por trás de todos esses sentimentos tão inocentes até pode ser entendido e explicado hoje, mas na época parecia simples e era tão complexo. Como conseguir não se sentir tão atraído por aquele garoto tão lindo e pegador, controlar isso e ainda tentar acreditar que era pura loucura? Ou simplesmente "coisa da sua cabeça" ou talvez "pecado"... Como ser capaz de responder tudo isso na confusão que a cabeça se encontra? No tubilhão de emoções, sentimentos e sensações com a dúvida e incerteza dessa falha de nome feio, perigoso e temido, a homossexualidade vai te dominando. Ou você vai dominando-a, não sei. Mas começa a haver um casamento entre ambos. Não de aceitação. Um casamento que une desistência em relutar, cansaço mental na guerra que existia entre sua mente e os pensamentos sujos. Essa aproximação é inevitável. Se haverá divórcio, quem poderá dizer? É até desejável, mas o desejo por outro homem se torna ainda mais desejável. Mais inebriante. E por um breve momento o casamento deixa de ser casamento e se torna um caso extra conjugal. Você é heterossexual, mas quando os pensamentos te dominam se entrega a eles seja errado ou não. Que se dane! Sente prazer e depois volta a ser hetero. Quantas vezes me masturbei pensando em homem? Muitas. Pensando em meninas? Nenhuma. Inúmeras tentativas falhas e vãs. Eu sabia que era gay. Mas não sabia como lidar com isso.