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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Tão tarde para ouvir sua voz

        A pior coisa que eu poderia ter dito pra minha mãe é que voltaria logo. Quando cheguei em casa no outro dia cedo a encontrei quase enfartada de preocupação. Foi tão estranho acordar, levantar e ir embora quase sem nenhuma palavra. Meu primeiro amor nem se levantou. Não houve beijo de despedida e da pior maneira saí da casa dizendo apenas um frio e seco tchau.
       Quando o fim de semana acabou e voltei pro trabalho me perguntava o que havia acontecido? O que eu tinha feito de errado ou porque tudo caminhou para aquela tragédia? Quanto mais eu pensava, mais desesperado ficava por ele não me ligar. Simplesmente sumiu. Uma amiga que trabalhava comigo percebeu minha melancolia e perguntou o que havia acontecido. Confiava nela e acabei cedendo às indiretas que ela jogava. Contei que era gay. Abri meu coração na esperança de ter uma outra pessoa que pudesse me ouvir e tentar me fazer entender as complexidades do amor.
        Se tivéssemos transado poderia dizer que ele só queria meu corpo. Mas ainda continuava o mesmo virgem de sempre. Se estivesse em semana de provas na faculdade teria bombado em todas as matérias. Não conseguia me concentrar em nada além dele. Queria aquele corpo pra mim, em mim, dentro de mim. Me contaminando dele...
        Me descobri apaixonado. Sentindo saudade de momentos bons que eu realmente havia sentido e vivido. Estava feliz por ser gay. Estava feliz por ter alguém. Mas extremamente preocupado com esse alguém e com seus sentimentos por mim. E nada dele me ligar...
       Resolvi então, eu mesmo procurá-lo. O problema é que depois do trabalho ía direto estudar e chegava tarde em casa. Primeiro toque. Meu coração disparou e não sei se era aflição por talvez acordar a casa toda ou ansiedade de ouvir novamente sua voz. Segundo toque. Estava mais ansioso que aflito. Terceiro toque e nada de alguém atender. Voltei a sentir a aflição tomar conta de mim. No quarto toque, barulho de telefone sendo atendido. Minhas pernas tremeram quando ouvi sua voz. Sussurrei um boa noite sem perceber que na verdade eu poderia falar alto. E imediatamente após responder meu cumprimento perguntou se eu não achava que estava tarde para ligar pra ele. Não foi rude. Mas me deu um soco na cara por telepatia. Uma semana depois de tudo que aconteceu. Uma semana inteira sem me procurar, sem dizer se estava vivo. Parecendo que esquecera de tudo ou fingindo não lembrar. Tentando esquecer... Sei lá. Sei que pra ele, naquele momento era tarde pra ouvir minha voz... Pedi desculpas por incomodar e disse que estava com saudade. Não sei se o silêncio que se seguiu foi porque eu realmente estava incomodando ou se ele estava dormindo segurando o telefone. Disse que ligaria pra ele outra hora, dei boa noite e desliguei. Fui dormir destruído!