Estava tudo grandiosamente maravilhoso e me divertia muito em meio a tanta gente como eu! Orgulhosas de sua sexualidade! A Avenida Paulista foi tomada por uma multidão que nunca imaginara que fosse ver um dia. Gente dançando, gente cantando, gente beijando. Pessoas olhando desconfiadas da calçada, pessoas se divertindo da calçada só acompanhando todos os orgulhosos gritando e brigando pela "construção de políticas homossexuais". O tema da parada para a grande maioria na verdade era "beijar o máximo de bocas possíveis". Infelizmente a grande maioria, inclusive eu, tinha um pouco ou apenas isso em mente. Algumas pessoas balançavam bandeiras partidárias por toda a caminhada. Achei aquelas pessoas bacanas e de algum modo eu me senti atraído por elas. Mas estava me atraindo por qualquer ser humano do gênero masculino que estivesse ali. Principalmente os que estavam sem camisa. Corpos malhados, sarados, suados, bonitos e perfeitos. Muitos. Mas havia também corpos feios, não malhados, não sarados, fedidos e mal vestidos equilibrando as coisas.
A tática adotada por nós para seguir a parada e aproveitar o máximo possível era curtir um pouco cada trio que passava por nós e quando enjoasse, diminuiríamos o passo para sermos acompanhados pela multidão que vinha logo atrás e assim sucessivamente. Quem quisesse beijar podia. Desde que não demorasse muito ou levasse a pessoa contigo. Escolhemos um trio para nos encontrarmos caso alguém se perdesse. E assim chegamos à tradicional bandeira gigante do arco-íris. Lá embaixo a beijação rolava solta. As pessoas se atracavam de uma forma até assustadora. Uns caras davam beijos de 30 segundos e em seguida já se pegavam com outros. Apesar de encantado com tudo aquilo, achei esquisito aquele lance de pegação. Gente! Esqueceram que a herpes bucal existe? Não quis nem imaginar quantas pessoas ali proliferavam o vírus. E muito animado eu continuava cantando e dançando.

Por incrível que pareça, não fui pisoteado ou empurrado. Tudo era lindo! Go-go boys em praticamente todos os trios, muita purpurina, paetês e muita diversão. Alguém passou a mão na minha bunda e infelizmente não consegui ver quem fora. Alguém me puxou e forçou um beijo, mas naquele mundo de gente eu não poderia escolher beijar justamente o mais cão de todos! Não que eu fosse o cara mais lindo e desejado, mas autovalor é sempre bom! Um outro garoto me olhou fixamente durante uns longos 15 segundos e após uma rápida analise do corpo e rosto eu o aprovei. Propositalmente soltei um falso tímido sorriso e foi o suficiente para ele se aproximar. Perguntou meu nome e respondi surpreso comigo mesmo. Aquela sensação e situação de flerte eram muito novas pra mim. Devolvi a mesma pergunta e ele me respondeu. Depois me agarrou e ficamos parados beijando por um tempo. Não sei exatamente quanto, mas quando me dei conta já não estávamos embaixo da bandeira e outro trio-elétrico já se aproximava. Aquele era o segundo homem que eu beijava em toda a vida e não tinha muita experiência com beijos para classificá-lo como ótimo, bom, regular ou ruim. Mas não era melhor que o beijo do meu primeiro amor. Fui puxado por ele para a calçada e não pude mais ver onde estavam os meninos que foram comigo. O garoto do beijo embaixo da bandeira comprou uma água e começou a me fazer perguntas. De onde eu era, minha idade, se estava solteiro. Eu respondia e ficava feito idiota repetindo "Ah, legal! E você?". Voltamos para a avenida após trocar número de telefones e andamos de mãos dadas, parando algumas vezes para uns beijos rápidos, outros mais demorados. Não era exatamente com ele que queria estar naquele momento. Podendo esfregar na cara das pessoas que não sou um monstro nem um demônio. Andar no meio da rua como namorados sem ser apontado, motivo de riso, cochicho ou chacota. Podendo escancarar que não é errado amar outro homem e sinto sim, muito orgulho disso!
Meia hora depois e eu já não estava mais aguentando bancar o casal. Queria me divertir, cantar e extravasar de verdade! Falei que precisava procurar meus amigos e ele se ofereceu para me ajudar. Pensei em simplesmente me perder dele e comecei a fazer isso, mas o menino não deixava. Quando me puxava para beijar eu desvencilhava e inventava qualquer coisa para evitar. Comprei uma água, fingi que fui empurrado, dei passagem para um grupo de bêbados que passou entre nós, disse que precisava ir ao banheiro e quando a única solução para escapar talvez fosse somente sair correndo e sumir, finalmente encontrei meu amigo gay. Passei então a dar atenção somente a ele. O garoto do beijo embaixo da bandeira que disse morar com a avó ali mesmo, próximo à avenida, inventou que tinha que voltar pra casa rápido para não levantar suspeitas sobre sua suposta ida à padaria. Fingi acreditar e antes de nunca mais vê-lo na vida eu o beijei novamente. Foi embora acenando e prometendo me ligar. Só para constar, ele nunca me ligou. Fiquei aliviado e livre para voltar a curtir cada momento tão fantástico.
Meu amigo gay disse que havia beijado cinco naquele período em que nos perdemos. O "gatchinho" estava do lado e o acusou de mentiroso. Estava um dia quente. Sol forte. O garoto estava suado e agora com mais gliter no rosto que no cabelo. Enquanto discutiam quantos daqueles cinco eram verdade eu percebi como a voz dele era estranha. Seu timbre de voz era uma mistura de grave com fina e acabava saindo algo estranho e um pouco irritante. Comecei a entender por que diziam que ele miava ao falar.