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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Lucky Blue

Fechei minhas portas e janelas para não deixá-la ir.

Para não deixá-la me abandonar aqui na depressão. 
E ainda assim ela se foi. 
Não voltou mais... 
Voou e nem percebi quando ou por quê! 
Minha sorte não voltou com "meu primeiro amor". 
Tampouco trouxe "um novo amor"...






Filme muito sensível. E lindo!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Meu momento Shun-Li

        Sim, eu agi feito uma criança que briga na escola e só não cai na porrada de verdade por que a professora entra na frente e ameaça chamar os pais. A diferença é que não estava mais no primário. E nunca fui tão valentão assim. Na verdade era mais provável que saísse correndo, gritando por socorro e chorando com medo de levar uma surra. No primário. Naquele momento eu talvez diria que o motivo era fútil demais sequer para discutir. Mas o cara me irritou demais! Claro que também não virei a Shun-Li e saí dando voadora, apesar de sentir muita vontade. O lance começou por que no dia da bendita apresentação, o grupo inteiro estava super estressado e nervoso, mas todos preparados. E o "idiota da faculdade" resolveu esquecer o disquete com todo o conteúdo. Bom, em primeiro lugar, cada integrante havia estudado o tema e principalmente sua parte na apresentação, mas nem todos estavam com a parte digitalizada. Coube a ele juntar tudo e até se prontificou a fazer isso, no início. Segundo, apesar de não me achar tão antigo, nem que o disquete seja algo de décadas atrás, sim, nós usávamos disquete na época. E já que falo de tempo, o cara tinha o dobro da minha idade, casado e dois filhos pequenos. Só pra constar.
        Decidimos então tentar apresentar sem mostrar nenhum slide. Ficaríamos com notas baixas e a sala inteira iria dormir com tanta falação à frente. Mas o meu "colega" resolveu correr até o laboratório de informática, telefonar pra a esposa e pedir que ela enviasse o trabalho por e-mail, para em seguida, salvar em outro disquete e se salvar da nossa fúria. Ele só esqueceu que o nosso grupo já seria o próximo a apresentar e mesmo que a esposa fosse uma hacker, o que também era bem pouco provável, não daria tempo.

        Alguém estava irritando o grupo anterior com tantas perguntas sobre o assunto enquanto o nosso esperava a professora fazer suas considerações, encerrar e pedir para começarmos. Ele então, retornou do laboratório, sentou-se na carteira ao meu lado e começou a cochichar que não tinha conseguido. Mas nós não deveríamos nos preocupar por que ele explicaria o acontecido e não perderíamos pontos na nota. Apresentaríamos normalmente e tudo daria certo. E enquanto ele foi falando, fui me irritando. Pedi pra ele ficar quieto e respeitar as pessoas à frente. Depois a gente resolvia, a merda já estava feita! Aí foi a vez dele se irritar e interrompeu o próprio blá blá blá para me chamar de chorão e chato. Só devolvi os insultos. Os mesmos insultos. Nosso tom de voz foi se elevando na discussão e ele então simplesmente me mandou tomar no cu! Aí a coisa esquentou. Explodi de uma maneira que não era normal pra mim. Comecei o bate boca de verdade mandando ele ir tomar no cu também! E que tomasse gostoso! Mandei ir se foder e crescer! Refletir sobre a própria infantilidade e ver que talvez os filhos que o imbecil tinha que sustentar eram mais maduros que ele! Um "chucro", ignorante, mal educado e burro! A sala toda permaneceu em choque enquanto me observava pegar material e sair da sala. Não quis nem saber. E o tonto ficou lá, gritando que ia me bater. Me mandando pro inferno e ameaçando me pegar na saída! 
        No final da história, ninguém mais apresentou trabalho nenhum aquele dia. Nosso grupo apresentou na aula seguinte e a professora deu mais um prazo pra ele preparar a apresentação individual. A nossa nota acabou sendo 10 e a dele 7. O "idiota da faculdade" não olhou mais na minha cara e até trocou de carteira nos dias seguintes. No semestre seguinte ele não estava mais matriculado e segundo os boatos que rolaram, havia perdido o emprego depois ter ter sido pego roubando. Se é mentira não sei, mas adorei e prefiro pensar que é verdade.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Alguns números

Naquela semana:


Número de provas na faculdade para fazer: 04
Número de trabalhos em grupo para apresentar: 01
Número de namorados fixos: 0
Número de pessoas apaixonadas por mim: 0
Percentual aproximado de saudade do meu primeiro amor: 80%
Número de pessoas que eu estava beijando: 01 (O gatchinho)
Número de bolos que levei de pessoas que eu estava beijando: 01
Percentual aproximado do ódio que senti: 90%
Número de discussões por motivos banais na faculdade: 01
Número de ameaças que recebi: 02
Número de posts explicando como foi a discussão e as ameaças: 01 (O próximo)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Conversando com os amigos

        Nos dias que se seguiram acabei ficando mais próximo do "ex ficante do motorista". No início foi por solidariedade pelo fato ocorrido na viagem de volta aquele dia. Descobri um cara simples, sincero e muito humilde! Nos tornamos amigos e descobri que ele já havia desencanado de tudo que acontecera. Mas sei que mesmo que isso seja verdade, lá no fundo ficou uma mágoa. Pode até ser pequena, mas existe e vai permanecer ali por algum tempo. Percebi isso nas conversas divertidas que tivemos. Esse meu novo amigo morava no mesmo bairro que eu e após uma visita à sua casa em um dia da semana que não me lembro exatamente qual, provavelmente um sábado ou domingo, encontrei uma amiga dos tempos de escola, a qual não via há muito tempo. Super por acaso. Ficamos então, conversando e rindo das palhaçadas daquele tempo bom que não volta mais. Das conversas, das brigas, das colas nas provas, dos trabalhos em grupo e de toda a rotina estudantil. Relembramos pessoas que não víamos há bastante tempo e também deixou saudade. Os amores, as desilusões, os professores...
        Anoiteceu muito rápido aquele dia e acho que depois de umas duas horas, encerramos o papo e prometemos nos encontrar mais vezes pra matar a saudade. Um pouco mais da saudade. fui embora e ainda pelo caminho acabei parando outra vez para conversar. Dessa vez com meu "amigo gay" que seguia até a casa de alguém para fazer cabelo e maquiagem de mais dois alguém. Essa parada foi rápida e eu praticamente só ouvi ele dizer que estava apaixonado pelo garoto de São Paulo. 
        "- Nossa, mas já?!" - Perguntei surpreso e sem reparar na gafe que cometia, ainda insisti:  "- O que você beijou na Parada por último?"
        Ele me fuzilou com o olhar e confirmou com a cabeça afirmativamente. Em seus pensamentos com certeza se perguntava que moral eu tinha pra falar sobre se apaixonar rápido demais ou insinuar qualquer coisa sobre beijar várias pessoas, afinal eu me dizia apaixonado até praticamente uma semana atrás. O "gatchinho" também não fez nenhuma questão de esconder o lance do beijo quádruplo e espalhava pra todo mundo que havia me pegado. Ele se despediu em seguida dizendo que estava atrasado e foi embora pedindo para que eu fosse até sua casa qualquer hora para conversarmos mais. Ainda gritou do outro lado da rua que na semana seguinte estaria cheio de coisas pra fazer no trabalho e provavelmente chegaria tarde em casa. Pensei em gritar que eu entraria em semana de provas finais na faculdade e também estaria bastante ocupado, mas ele seguiu em frente e não olhou pra trás. Logo o perdi de vista.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

De volta pra casa

        Voltar pra casa após um dia na Parada Gay de São Paulo sem sentir uma pontinha sequer de depressão pós-parada é bem difícil. Eu afundei numa fossa destruidora ainda no caminho. Conseguimos sobreviver à loucura e confusão que estava toda aquela região da cidade, pegar o carro no estacionamento e seguir viagem. Estava um pouco tarde e misturado ao clima apimentado e quente  que rolava, havia também uma grande tensão. Algo tinha acontecido e as emoções e hormônios pareciam nos dominar. Enquanto beijava o garoto que insistia em me chamar de "gatchinho", também no banco de trás do carro agora estava o ficante do motorista. E na frente estava meu amigo gay, talvez para evitar discussões entre o casal que passara o dia todo com cara de quem não estava curtindo nada daquilo. Tá, eles deviam ter brigado e agora estavam evitando se olharem. Estava me lixando. Mal os conhecia. Tentei puxar conversa pra ver se aliviava a tensão que pairava no interior do veículo. Perguntei sobre o garoto que meu amigo gay beijara e ele só me respondeu que "foi legal". Desconfiei daquela resposta. O cara foi gritando, rindo e falando sem parar e na volta, apenas um "foi legal"? Como assim? Tentei encará-lo pelo espelho mas não obtive sucesso. Porém, percebi logo que algo estava acontecendo. Naquele exato momento, além de um certo flerte entre ele e o "motorista", a cara incrédula e furiosa do que agora talvez fosse "ex-ficante do motorista", que já percebera o que rolava a frente. Clima quente mesmo. Nem enxerguei a mão do meu amigo. Vi que estava dentro da calça do cara. Movimentos lentos masturbavam-no e desviei a vista para tentar analisar a situação. Achei que fosse rolar o maior quebra pau ali.
        Mais uns quilômetros a frente e o carro parou. Achei que alguém fosse descer para mijar e permaneci onde estava. O "gatchinho" me beijava e começou a alisar meu pênis por fora da calça. Eu estava excitado. De repente me vi no carro com o cara me agarrando e o "ex-ficante do motorista" de cara feia ao lado. Coitadinho dele! Do lado de fora ouviu-se uns gemidos suspeitos e então vi que o negócio estava ainda mais complicado do que uma punheta pra finalizar a viagem. Estavam transando lá fora. Ficamos alguns minutos parados até finalmente o novo casal voltar para seguirmos viagem. A dor que aquele garoto sentiu vendo tudo aquilo era totalmente inexplicável. Eu me sensibilizei demais com a traição sofrida por ele. Meu "amigo gay" e o "motorista" foram totalmente mau-caráter. Aprontaram uma sacanagem e fingiram que nada havia acontecido. Fingiram não, apenas permaneceram como se nada tivesse acontecido. Foi uma sacanagem nua e crua. Com direito a penetração e gozo!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Na parada: Beijar se faz necessário!

         É impossível ir à Parada, resistir às tentações e ficar sem beijar ninguém! Existe até uma espécie de disputa pra ver quem beija mais. Sim, isso é deplorável! Tem gente que beija dois e diz que beijou vinte. Tem quem beije vinte e conte duzentos. E há quem beija muitos e diz que não beijou ninguém. O fato é que eu havia beijado mesmo apenas um e em algum momento, outro alguém me roubou um selinho. Já era o suficiente, afinal não estava ali com aquele intuito. Mas quando cai a noite a verdade é que ninguém passa a ser de ninguém. Bate certo desespero nas pessoas e elas vão à caça. Um bando de loucos, bêbados, loucos bêbados e bêbados loucos. Beijar, beijar, beijar! A essa altura tem gente cansando de tanto beijar. Estávamos todos juntos outra vez após nos perdermos várias vezes um dos outros. O motorista parecia emburrado com algo em relação ao seu ficante. Talvez tivessem se desentendido com algo. A coisa não parecia boa pra eles. Meu amigo gay dançava todo o tempo e no final da tarde arrumou um cara no meio da muvuca que ainda estava com ele durante a noite. Os dois pareciam se divertir pra valer e quando se beijavam quase se engoliam. O garoto com gliter no cabelo também estava beijando um homem mais velho e muito bonito por sinal, mas estava em um momento biscate. Tratou de despachar o cara e começou a dar em cima de mim. Pensei outra vez no meu primeiro amor e antes de pensar em me arrepender depois, agarrei o garoto e ficamos encostados num muro beijando pra valer. Devo ter ficado brilhando também.
“- Delícia!” – Gritou uma garota que passava com um suposto namorado em um tom afável.
“- Por que você não vem participar também então!” – Gritou irritado, parando de me beijar e encarando o casal.
        Ele só podia estar louco! Como ousava dizer aquilo? Eles então se aproximaram e eu imaginei a confusão que iria se armar. De repente a garota o puxou pra si e beijou. Na nossa frente. Antes de me recobrar do choque, o cara que estava com ela me pegou e me beijou. Ah e aquele sim foi um beijo bom! Cheio de calor e desejo. Ele era gostoso demais! Em seguida fui arrancado dos braços dele e beijado dessa vez pela garota. Trocaram-se os casais e depois do troca-troca de beijos foi a vez do beijo quádruplo. Línguas se encostando e acariciando-se em um grito mudo de excitação e curiosidade.
        Quando o beijo acabou o casal foi embora sorrindo e dizendo ter adorado. Como eu queria ter ido com eles! Ainda encostados no muro o garoto do gliter no cabelo me olhou sem conseguir disfarçar o tesão e perguntou algo que me fez brochar no mesmo instante. Como um empurrão no precipício do arrependimento. A voz hora fina, hora grossa saiu ainda mais estridente e estranha:
“- Ei gatchinho, tá gostando de ficar comigo?”
        Achei melhor não responder absolutamente nada.

Na parada: Ter orgulho não é errado!

        Estava tudo grandiosamente maravilhoso e me divertia muito em meio a tanta gente como eu! Orgulhosas de sua sexualidade! A Avenida Paulista foi tomada por uma multidão que nunca imaginara que fosse ver um dia. Gente dançando, gente cantando, gente beijando. Pessoas olhando desconfiadas da calçada, pessoas se divertindo da calçada só acompanhando todos os orgulhosos gritando e brigando pela "construção de políticas homossexuais". O tema da parada para a grande maioria na verdade era "beijar o máximo de bocas possíveis". Infelizmente a grande maioria, inclusive eu, tinha um pouco ou apenas isso em mente. Algumas pessoas balançavam bandeiras partidárias por toda a caminhada. Achei aquelas pessoas bacanas e de algum modo eu me senti atraído por elas. Mas estava me atraindo por qualquer ser humano do gênero masculino que estivesse ali. Principalmente os que estavam sem camisa. Corpos malhados, sarados, suados, bonitos e perfeitos. Muitos. Mas havia também corpos feios, não malhados, não sarados, fedidos e mal vestidos equilibrando as coisas.
        A tática adotada por nós para seguir a parada e aproveitar o máximo possível era curtir um pouco cada trio que passava por nós e quando enjoasse, diminuiríamos o passo para sermos acompanhados pela multidão que vinha logo atrás e assim sucessivamente. Quem quisesse beijar podia. Desde que não demorasse muito ou levasse a pessoa contigo. Escolhemos um trio para nos encontrarmos caso alguém se perdesse. E assim chegamos à tradicional bandeira gigante do arco-íris. Lá embaixo a beijação rolava solta. As pessoas se atracavam de uma forma até assustadora. Uns caras davam beijos de 30 segundos e em seguida já se pegavam com outros. Apesar de encantado com tudo aquilo, achei esquisito aquele lance de pegação. Gente! Esqueceram que a herpes bucal existe? Não quis nem imaginar quantas pessoas ali proliferavam o vírus. E muito animado eu continuava cantando e dançando.
        Por incrível que pareça, não fui pisoteado ou empurrado. Tudo era lindo! Go-go boys em praticamente todos os trios, muita purpurina, paetês e muita diversão. Alguém passou a mão na minha bunda e infelizmente não consegui ver quem fora. Alguém me puxou e forçou um beijo, mas naquele mundo de gente eu não poderia escolher beijar justamente o mais cão de todos! Não que eu fosse o cara mais lindo e desejado, mas autovalor é sempre bom! Um outro garoto me olhou fixamente durante uns longos 15 segundos e após uma rápida analise do corpo e rosto eu o aprovei. Propositalmente soltei um falso tímido sorriso e foi o suficiente para ele se aproximar. Perguntou meu nome e respondi surpreso comigo mesmo. Aquela sensação e situação de flerte eram muito novas pra mim. Devolvi a mesma pergunta e ele me respondeu. Depois me agarrou e ficamos parados beijando por um tempo. Não sei exatamente quanto, mas quando me dei conta já não estávamos embaixo da bandeira e outro trio-elétrico já se aproximava. Aquele era o segundo homem que eu beijava em toda a vida e não tinha muita experiência com beijos para classificá-lo como ótimo, bom, regular ou ruim. Mas não era melhor que o beijo do meu primeiro amor. Fui puxado por ele para a calçada e não pude mais ver onde estavam os meninos que foram comigo. O garoto do beijo embaixo da bandeira comprou uma água e começou a me fazer perguntas. De onde eu era, minha idade, se estava solteiro. Eu respondia e ficava feito idiota repetindo "Ah, legal! E você?". Voltamos para a avenida após trocar número de telefones e andamos de mãos dadas, parando algumas vezes para uns beijos rápidos, outros mais demorados. Não era exatamente com ele que queria estar naquele momento. Podendo esfregar na cara das pessoas que não sou um monstro nem um demônio. Andar no meio da rua como namorados sem ser apontado, motivo de riso, cochicho ou chacota. Podendo escancarar que não é errado amar outro homem e sinto sim, muito orgulho disso!
        Meia hora depois e eu já não estava mais aguentando bancar o casal. Queria me divertir, cantar e extravasar de verdade! Falei que precisava procurar meus amigos e ele se ofereceu para me ajudar. Pensei em simplesmente me perder dele e comecei a fazer isso, mas o menino não deixava. Quando me puxava para beijar eu desvencilhava e inventava qualquer coisa para evitar. Comprei uma água, fingi que fui empurrado, dei passagem para um grupo de bêbados que passou entre nós, disse que precisava ir ao banheiro e quando a única solução para escapar talvez fosse somente sair correndo e sumir, finalmente encontrei meu amigo gay. Passei então a dar atenção somente a ele. O garoto do beijo embaixo da bandeira que disse morar com a avó ali mesmo, próximo à avenida, inventou que tinha que voltar pra casa rápido para não levantar suspeitas sobre sua suposta ida à padaria. Fingi acreditar e antes de nunca mais vê-lo na vida eu o beijei novamente. Foi embora acenando e prometendo me ligar. Só para constar, ele nunca me ligou. Fiquei aliviado e livre para voltar a curtir cada momento tão fantástico.
    Meu amigo gay disse que havia beijado cinco naquele período em que nos perdemos. O "gatchinho" estava do lado e o acusou de mentiroso. Estava um dia quente. Sol forte. O garoto estava suado e agora com mais gliter no rosto que no cabelo. Enquanto discutiam quantos daqueles cinco eram verdade eu percebi como a voz dele era estranha. Seu timbre de voz era uma mistura de grave com fina e acabava saindo algo estranho e um pouco irritante. Comecei a entender por que diziam que ele miava ao falar.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Na parada: O impossível não é pecado!


        Fiquei um bom tempo sem ver meu primeiro amor. Disseram que estava trabalhando feito doido e não tinha tempo pra nada! Perguntei-me por que achava tempo para dizer isso aos outros, mas não tinha pra mim? Também não me interessava mais qualquer resposta. Não naquele momento. Acho que nós não estávamos mais juntos e depois daquele sumiço, cansei de esperar respostas. Resolvi tentar seguir em frente e não mais sofrer. Aceitar como uma grande desilusão. Afinal, era o que me restava pensar após três semanas de silêncio.
        Quando meu amigo gay confirmou que iríamos sim à Parada Gay fiquei bem empolgado. Queria logo encarar aquela descoberta. Definitivamente, seria uma tremenda surpresa descobrir um mundo como aquele que eu só via nas reportagens dos telejornais. Segundo me disseram, deveria estar feliz por estar solteiro. A pior coisa do mundo é ir com namorado (a) àquela "festa". Então tá. Vamos ver no que daria a loucura. No domingo, estava de folga no estágio. Menti para meus pais. Disse que estava indo ao Playcenter de carro com outros quatro amigos. Apenas meu destino estava errado. Paguei uma quantia que não me lembro exatamente quanto, referente à gasolina e ao estacionamento. E fomos.
        O motorista era um total desconhecido pra mim. Um cara alto, moreno e apesar de não ser lindo, tinha sua beleza. Mas não me chamava atenção. Como era o dono do carro, único que tinha habilitação e estava ficando com um amigo, foi incumbido da missão.
        O ficante do motorista morava também no bairro e acabou se tornando um conhecido na festinha de aniversário. Aliás, foi por lá que começaram as negociações da ida à São Paulo naquele domingo. Ele foi à frente com o cara por uma questão de lógica, mas falarei nos próximos post os acontecimentos posteriores que me confundiram em relação ao rolo ou relacionamento de ambos, se assim soar melhor. Na ida era um casal.
        O terceiro passageiro era o meu já muito citado amigo gay. O mais empolgado de todos. Gargalhava e conversava excitadíssimo com a viagem. Era visivelmente o mais ansioso e mais gay de todos. Acho que tinha até blush no rosto, mas nem perguntei.
        A "Maria meinho" no banco de trás era alguém que por enquanto vou chamar apenas de gatchinho. Não que tenha alguma relação com sua beleza. Não mesmo. Mas logo tudo ficará claro. Bom, o gatchinho, apesar de também ter estado no aniversário, não conversou comigo. Até cinco minutos antes de ele aparecer eu sequer sabia quem era o quarto passageiro. E ele também havia caprichado na produção. Havia passado gel nos cabelos. Muito gel. Atenção para um detalhe: Havia gliter no gel. Muito gliter.
        O quinto era exatamente a pessoa que narra essa historinha. Fiquei do lado da janela, exatamente atrás do motorista. E com a desculpa de ter visto algo interessante que me prendeu a atenção do lado de fora, quando não estivesse com vontade de rir de alguma piada ou brincadeira sem graça que fizessem durante a viagem.
        Chegamos razoavelmente rápido na cidade de São Paulo. Não foi cansativo e só senti um pouco de vergonha quando meu amigo gay gritou algumas vezes as palavras gostoso, tesão e delícia para os homens que passavam pela rua. Foi um pouco complicado mesmo achar um estacionamento para deixar o carro próximo à Avenida Paulista. Chegamos por volta de meio-dia e já era intensa a movimentação de pessoas por ali. Deve ter demorado uma meia hora para estarmos tranquilos em relação à segurança do carro. Foi quando comecei a me dar conta do quanto àquilo era fantástico! Êxtase total! Estava encantado com o lugar, as pessoas... Era bem diferente do que imaginava. Na verdade achei que encontraria muitos travestis, lésbicas, bichinhas modernas e femininas e alguns interioranos como nós. Mas aquilo chegava a ser até engraçado de tanta bizarrice. Lésbicas, gays, travestis, pessoas feias, bonitas, pessoas com cara de loucas, caras de estupradores, góticos, punk. Gente de todas as tribos, idades e espécies!
        Meu amigo gay, de repente encontrou algum conhecido no meio da multidão que começava a se aglomerar em volta dos primeiros trios elétricos posicionados na avenida.
        "- E ai, veadinho!" - Gritou para alguém que não consegui identificar a princípio. "- Como a senhora está biscate? Tá boa?" - Meu amigo exibia feminilidade até no jeito de falar. Aquilo
foi estranhamente degradante no início. Depois, acredite, me acostumei. Estava mesmo muito orgulhoso da minha sexualidade!
        Naquela infinidade de pessoas, com probabilidade de encontrar alguém conhecido praticamente em zero, já nos deparamos com umas pessoas da minha cidade. Pensei imediatamente em azar. Em meio a esse grupinho estava o casal de lésbicas. Aquele  aparentemente perfeito. O da garota do shopping. Lembrei-me da frase na capa da minha agenda aquele ano... "O impossível não é pecado". Tirando a possibilidade de encontrar minha mãe ali também e descobri-la lésbica, nada mais poderia ser impossível! E foi pensando nisso que resolvi me entregar ao fervo...  E então, começou a Parada do Orgulho Gay!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ufa, foi quase!

        Vamos combinar que ser pego em flagrante fazendo algo estupidamente ridículo, deplorável, asqueroso, absurdo e demais adjetivos que seguem essa linha vergonhosa de atitudes por qualquer pessoa é o cúmulo de qualquer mico! E o que diria sobre ser pego num momento falho de sua vida pela única pessoa que não poderia de forma alguma saber ou ver, talvez sequer imaginar que você era capaz de fazer aquilo que estava fazendo? É como o corno, sempre o último, a saber. Desculpa, corno é uma palavra forte e preconceituosa. Vamos dizer que o chifrudo... Brincadeira. Desculpa de novo. O traído. Assim como o traído sempre é o derradeiro a saber, o dono da festa surpresa sempre descobre o motivo dos murmúrios e cochichos, a pessoa que não puder te flagrar fazendo determinada coisa será a primeira a presenciar o ato em si. Por isso, fica um conselho muito clichê, mas sincero. E verdadeiro. Nunca faça coisas erradas escondido, vai por mim, vai ser pior ser flagrado. Mas como ninguém é perfeito e todos humanos, passíveis de erros. Se errar, saiba cometer o erro. Mas erre de uma maneira muito certeira. Dê uma aula de como ser mau caráter! Não que eu seja assim, longe de mim! Ao contrário. Eu já fui traído e já fui quase flagrado. Não sou tão inteligente pra isso, mas sou esperto! Comigo é sempre no "quase"!
        Meu primeiro amor havia me telefonado para saber como estava e disse que estava bem. Com saudade e morrendo de tédio em casa, mas estava bem. Então pedi para que fosse até minha casa e ele imediatamente recusou.
        "-Não vou de jeito nenhum! E seus pais?" - Disse sem preâmbulos e colocando empecilho.
        "- Primeiro que você viria como meu amigo. Garanto que ninguém vai te bater." - Defendi meus pais. E continuei malicioso. "- Não pancada, se é que você me entende! Mas se o problema realmente for esse, eles estão de saída. Vão pra casa de algum parente, sei lá. Vou ficar só e eles nunca chegam antes das três da madrugada."
        Precisei insistir um pouco até ele topar. E chegou rápido. Já estava sozinho quando apareceu. Claro que os fatos que vou descrever a seguir aconteceram quando estávamos aparentemente bem e não imaginava que existia a tal garota que jurei evitar falar sobre. Continuando. Estava tudo lindo, tudo legal e belo. O amor é ridículo mesmo! Nós dois comemos chocolate, como um casal feliz; beijamos como um casal feliz; ficamos vendo televisão abraçados no sofá, como um casal feliz; rimos muito e eu me sentia bem, como se fizesse parte de um casal feliz! Odeio casais felizes! Odeio mesmo, de verdade! Depois de muito namorico a coisa esquentou e não hesitei em levá-lo para o quarto dos meus pais. Arrancamos a roupa quase como animais. E como tudo neste post fica no quase, adivinha?! Ficamos no quase. Aconteceu sim, tudo que aconteceria durante as "preliminares", mas na hora do "agora é que são elas", outra vez meu primeiro amor não quis. Disse que estava tenso e realmente transparecia medo em seu semblante. Então, como que pra finalizar, eu o masturbei, ele me masturbou, nos limpamos e ele cismou que queria ir embora em seguida. Não insisti para que ficasse. Arrumei a cama e saímos. Fui com ele até a esquina do segundo quarteirão. Sem nos estendermos em qualquer assunto, nos despedimos e voltei. Não demorou muito. Quinze minutos e eu já estava chegando em casa novamente. Olhei na garagem e vi o carro do meu pai estacionado. Meu coração disparou. Eles haviam chego antes da 01h00min e por muito pouco não aconteceu uma tragédia. Um flagrante! Entrei devagar e percebi que minha mãe já havia até trocado de roupa. Foi por pouco! Graças à sensibilidade do meu primeiro amor, não aconteceu um flagrante de verdade, como aqueles vergonhosos, citados no início deste. Foi um perigosíssimo "quase"!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Uma festa, dois sustos (O segundo susto).

      
        Após descobrir que a garota do shopping era lésbica assumida, bem resolvida, praticamente casada com outra garota que também morava aqui no bairro eu fiquei mais tranquilo e confesso que senti um pouquinho de inveja dela. Mas só um pouco mesmo! No decorrer da festa conversei com alguém aqui, outro desconhecido ali... Ameacei umas risadinhas acolá e nesse clima de falso divertimento eu esperava a chegada do meu primeiro amor. O aniversariante já havia aparecido e tentava conversar com todos para que ninguém saísse dali falando barbaridades dele. Na verdade realmente aconteceria por parte de uns invejosos que marcam presença exatamente pra isso. Lembrando que minha inveja era da aparente felicidade no casal de lésbicas que até tomavam cuidado para não roubar a cena e desviar a atenção para elas. Meu amigo gay apareceu em certo momento da festinha com um vestido super apertado, uma sandália e o cabelo solto (Sim, ele estava deixando as madeixas crescerem). E junto às duas figuras que agora definitivamente pagavam mico tentando dar um up no clima, começaram a dançar axé no meio das pessoas. Axé coreografado. Minha amiga vergonha alheia se aproximou novamente e ficou me fazendo companhia por um tempo. Apesar de tudo ser um pouco exagerado, eu estava contente em ver a alegria do meu amigo pulando e gargalhando o tempo todo. Ele estava feliz e no fim das contas é só isso o que importava.
        O casal de lésbicas se despedia de todos para irem embora. Depois delas outro cara alto também se preparou para seguir seu rumo e outras pessoas que deviam ser da família, anunciaram sua saída após o fim das bebidas na mesa. Quando todos começaram a se olhar pensando exatamente a mesma coisa, "será que devo ir embora agora?", comecei na verdade a ficar impaciente com a ausência do meu primeiro amor. Onde estaria? Disse que iria à festa e já estava ficando tarde. Alguém perguntou por ele e eu estaria no céu se pudesse responder como estava. Não sabia sequer onde estava e a própria pessoa respondeu que devia estar trabalhando. Não disse nada, mas me senti um lixo. Bem longe de estar em um relacionamento como o da garota do shopping e sua bela namorada!
        As drag queens já estavam outras vez vestidas de menininhos, o gordo, feio e chato apesar de ainda estar gordo, feio e chato despediu-se também da maioria dos ainda presentes e foi embora. E quando arrisquei dizer que também estava indo, fui praticamente proibido de ir. Meu amigo pediu para ficar mais um pouco com ele. Até o pessoal todo ir. Sua expressão estava radiante e me convenci a esperar um pouco mais. Quando foi oficialmente encerrada, havia além dos próprios familiares moradores, dois caras até simpáticos e eu. Fomos para o quarto do meu amigo e ficamos lá ainda dando risada e lembrando coisas engraçadas ocorridas na festa. Apesar de tentar me concentrar naquilo, minha mente estava distante. Comecei a me sentir desconfortável e quando estava prestes a anunciar que realmente estava indo, parte da porta abriu-se e com apenas a cabeça dentro do quarto alguém disse:
        "Oi, gente!" Foi o cara que eu esperara a noite toda.
"Oi, gente!" Não foi um oi pra mim, nem um oi para o meu amigo. Foi um "Oi, gente!”. Um oi pra todo mundo que estava no quarto. Decidi esperar ele terminar de conversar com a mãe do nosso amigo na cozinha e voltar onde estávamos para como uma pessoa educada de verdade, conversar com a gente, principalmente comigo! Mas meu segundo susto da noite foi a incredulidade na atitude dele de se esquivar o tempo todo e evitar minha presença. Como lidar com uma pessoa assim? Percebi que ele não estava muito preocupado ou interessado em termos aquela conversa. Talvez a ausência de qualquer palavra fosse a maneira que me daria uma resposta. Talvez fosse a própria resposta. Sem me preocupar com mais nada disse que estava cansado e resolvi ir mesmo embora. Ninguém me acompanhou até a porta, mas não liguei pra isso. Antes de sair eu não pude deixar de expressar minha boa educação com um toque de ironia...
“Tchau, GENTE!” E fui pra minha casa puto da vida, outra vez!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Uma festa, dois sustos (O primeiro susto).

       
        Mesmo que a festa de aniversário do meu amigo gay entrasse para o guinness como a mais divertida e animada da história eu seria o convidado mais infeliz! Chegou o dia da "comemoração" e eu só marcando presença corporal no lugar. De longe já se podia notar pela música que era uma movimentação gay no bairro. Pensei em voltar pra casa quando percebi gritinhos e gestos suspeitos vindos de homens não heterossexuais à frente. E se algum vizinho, conhecido, amigo do meu pai, sei lá, estivesse por ali e me visse entrando naquele lugar? Estava muito nervoso quando cheguei na casa e fui entrando devagar encarando aquelas pessoas desconhecidas. Sorri para todas propenso à amizade. Nem todos os olhares e sorrisos foram retribuídos, muitos deles por pura educação e tão já de cara um belo de um susto. Lá estava ela! Encostada em um canto do lado de fora da casa, sorrindo quietinha. Provavelmente se divertindo com dois "seres" que tentavam dançar no centro, chamando a atenção para seus respectivos trejeitos em forma de dança. Uma dança ridiculamente engraçada. Talvez não pela dança em si, mas pelo que vestiam. E pelo amor de Deus aquilo na cabeça de um deles era pra parecer uma peruca? Enfim, a garota que eu estou falando em primeiro lugar era mesmo uma garota. Quero dizer, uma menina de verdade e não um menino de vestido! Eu não sabia o seu nome ou onde morava ou simplesmente o que diabos ela fazia ali, mas o que me preocupou foi o fato de saber onde ela trabalhava. E olha só que surpresa... No mesmo lugar que eu! Não exatamente no mesmo local jurídico, mas praticamente no mesmo espaço físico! Alguns metros apenas de distância de onde eu me concentrava em praticar minha atividade remunerada todo santo dia! Eu estava ferrado! Imagina só se ela abrisse a boca? Espalhasse que me viu, que eu estava em uma festa gay! Que eu sou gay? E se fosse uma daquelas pessoas sem noção que já se acham melhores amigos só por saberem seu nome? No mesmo instante em que a encarei e ela correspondeu meu olhar, pensei amedrontado e na defensiva que se ousasse qualquer coisa eu negaria e/ou diria o mesmo sobre ela. Toma lá dá cá! (Não, não estou assistindo o programa da globo. Foi só maneira de falar). Eu falo mal dela também em resposta à suas acusações. Poderia ameaçar contar no trabalho dela e prejudicá-la se fizesse o mesmo comigo. E depois de me encarar por longos e intermináveis dois, talvez três segundos, ela sorriu simpática e eu correspondi com um discreto e leve levantar de sobrancelhas. E se ela fosse legal, hein? Pensando bem eu não teria coragem de ser tão vilão assim. Nem pra me defender, acho. Sempre fui tão bundão... (E se eu tiver a bunda grande? Algum problema? Ok. Não tenho).
        Depois do susto número um, veio a vergonha alheia. Uma das criaturas esquisitas que rebolava foi dar uma espécie de giro e quase caiu. Acredite, aquilo era um garoto e usava uma sandália horrorosa com um salto bem alto. Vergonha alheia por ele ter feito depois uma piadinha que não me lembro agora qual e absolutamente ninguém sequer mexeu um músculo da face para dar risada. Acho que alguém espirrou nesse momento. Um garoto meio gordinho, meio feinho e meio chatinho passou por mim e me encarou com desejo. Dessa vez a vergonha não foi alheia. A casa transformou-se num labirinto de repente e não conseguia chegar à cozinha. Em meio a todas aquelas pessoas desconhecidas, foquei um cômodo da casa na tentativa de encontrar o aniversariante, visto que, se o mesmo não está em lugar nenhum onde acontece a festa é por que está na cozinha gritando, chorando e berrando para que o ajudem a não deixar aquilo tudo se tornar um fracasso!
        O garoto gordinho, feinho e chatinho passou outra vez por mim arrastando outro gayzinho pelo braço. Tenho certeza que ouvi ele me chamar de tesão, bem baixinho, cochichando com o outro. Me senti o fodão e me fiz de desentendido. O gayzinho que eu não sabia quem era devolveu: "Esse aí já tem dono!" Como assim já tem dono? Eu não tenho dono! Não mesmo! Não tenho não! Fiquei com raiva na hora. Ele não me conhecia... Como assim, ele já tem dono? Ninguém manda em mim, ninguém me dá ordens, ninguém me diz o que fazer (exceto meus pais, mas deixa isso pra lá), e ninguém é meu dono não! Podem me chamar de tesão a vontade, mas me botar coleira não! Resolvi ignorar aquilo e pensar que eu sou superior. Se ele estava se referindo ao meu primeiro amor como meu suposto dono, estavam enganados! Um deles redondamente e o outro enganado! Me recuso a ter dono e na boa, que comentário machista e preconceituoso vindo de um gay! Bom, um amigo me disse depois que eu estava sendo bobo e isso não tinha nada a ver, que fora só um comentário besta. Mesmo assim eu não gostei.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Lindos olhos verdes!


         Você já se encantou por um par de olhos verdes? Já se apaixonou por alguém com olhos verdes? É legal né? Quem tem olhos pretos ou castanhos acha isso o máximo! A metade nega por pura inveja! Eu acho interessante! Meu primeiro amor tem olhos verdes e talvez por isso acho tão legal! É, acho legal, mas também não é assim tão sensacional. Não trocaria a cor dos meus. Gosto deles assim. E sabe por que prefiro os azuis aos verdes? Quem tem olhos azuis é mais humilde! Basta contar e comparar quantas peças de roupa da cor dos olhos existe no guarda-roupa de cada um. Isso é fato! Mais da metade das roupas e acessórios de quem tem olhos verdes é da própria cor dos olhos! Super auto-valorização desnecessária! Acho bonito sim, mas pra quê se vestir feito uma floresta só pra dar esse destaque ao olhar? Uma vez ainda ouvi uma amiga soltar uma pérola e dizer que a cor dos seus eram verde-piscina. "A água devia estar bem suja!" Pensei comigo mesmo. "Muito lodo. Deveriam interdita-los!" Sobre quem tem os olhos castanhos e insiste em dizer que são mel eu nem vou comentar!
        O quê? A cor dos meus? Verdes! Mentira. São castanhos. Não são mel, ok? C-A-S-T-A-N-H-O-S. E lindos sim! Me valorizo! A única coisa marrom no meu caso é o próprio guarda-roupa. E talvez uma bermuda super cafona que uso para dormir quando não durmo só de cueca.

Esqueça os finais!

        Sabe quando você começa a gostar de uma música e por estar apaixonado começa a ligar aquela música à pessoa amada? Essa é a pior coisa que pode acontecer! Aprendi isso bem cedo. Aconteça o que acontecer, não diga que aquela música perfeita que parece ter sido feita para escrever sua história é a música do casal. Quando o Kid Abelha lançou o álbum acústico MTV eu enlouqueci! Todas as músicas eram lindas! Todas sensacionais! Mas aí, meu primeiro amor me decepcionou e adivinha? Fiquei um período bem longo sem conseguir ouvir e segurar a mágoa que parecia me sufocar. Era quase junho quando percebi que talvez perdera meu grande amor...
           Esqueça os meses, esqueça os seus finais!

Sensato é ser verdadeiro!


        Já chegamos tarde da noite na casa do meu amigo gay, mas ele ainda estava acordado. Depois de muita risada e conversa, nada das palavras organização ou preparativos ou sequer festa entre os assuntos diversos. Resolvi falar sobre meu constrangimento em estar na casa dele aquela hora e avisei que já estava indo embora. Só na hora de saírmos é que a festa do dia seguinte foi confirmada por ele. Eu disse que iria sim e após os abraços e despedidas fomos embora. Meu primeiro amor e eu andamos calados pela rua até a esquina que nos separaria rumo a nossas casas, por volta de duas horas da madrugada.
"Queria conversar com você." Disse ele finalmente.
        Sinceramente, toda aquela enrolação foi extremamente desnecessária pra despejar tudo que ele pretendia me dizer naquele momento. Começou a falar que não entendeu como nos afastamos tanto, que tinha adorado me conhecer, mas não sabia se deveríamos continuar juntos. Achou estranho termos sido "frios" na noite fracassada de amor. Disse que não achava ruim minha inexperiência em relacionamentos homossexuais, mas eu estava travado demais com ele e talvez fosse melhor não mais. Talvez isso, talvez aquilo... Eu sou bacana, mas alguma coisa... Ele estava confuso... Não sabia o que fazer... E depois de muito blá blá blá, ele jogou a bomba... Estava ficando com uma garota quando me conheceu. Ficou com nós dois esse tempo todo e agora, apesar de gostar muito de mim, não sabia o que fazer... Não sabia se terminava com ela pra ficar comigo, se terminava comigo pra ficar com ela ou se terminava com os dois.
        Respirei fundo. "Ele não era gay? Quer dizer, gosta só de meninos?" Eu estava destruído e conhecendo o real significado da expressão "ficar sem chão". Em meio a uma gagueira que nunca tive antes eu só consegui dizer que gostava muito dele. Pedi desculpa por ser imaturo. Não podia fazer nada se o currículo dele era maior que o meu. Que escolha eu tinha? Gostar dele ou não. E já havia me decidido. Quanto as opções dele, aí eram maiores e infelizmente só cabia a ele escolher. Segurei firme as lágrimas e disse que era melhor irmos pra casa e pensar. Estava tarde e não dava pra ficar numa esquina de madrugada discutindo relação. Não contente em me apunhalar daquela forma, ainda disse que nós tínhamos que ser sensatos, afinal nem havia lugar onde pudéssemos ficar juntos. Nossas famílias não sabiam da nossa preferencia afetiva e isso complicava muito a situação.
        "Ok. Posso falar na real? Você é um idiota! Uma criança confusa e cheio de neuras bestas, que não decidiu o que quer da vida e fica nessa palhaçada de enganar e iludir o coração alheio! Você é um egoísta! Desculpa o cacete por ser imaturo! Você é que é um sem noção! A relação esfriou com o balde de água que fria que você foi derramando aos poucos, seu babaca! E vou aproveitar pra confessar que mais babaca sou eu de estar gostando de você! Pedir para eu ser sensato é uma piada, não é?!"
        Claro que eu não disse nada disso, apenas pensei enquanto tentava não parecer um jacú na frente dele. Tá bom, confesso, elaborei isso depois. Na hora eu não consegui pensar em nada e acho que realmente me passei por jacú. Mas, o que realmente saiu foi algo até sensato de minha parte.
"Melhor mesmo irmos embora, descansar e pensar. Eu gosto de você e quero ficar contigo. Mesmo sendo muito difícil. Mas você tem que querer também pra ser legal. Amanhã a gente conversa. Durante a festa, quem sabe... Gosto de você! Quero muito você!"
        E isso eu realmente queria!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Agora sim, é tarde pra você me ligar...

        Se antes eu perdia para o vôlei e para a missa, agora eu perdia meu primeiro amor para o trabalho dele. Não havia tempo para ficarmos juntos e nos dias que se seguiram eu nem sabia mais se ainda estávamos juntos. Quando eu telefonava e conseguia falar com ele a conversa era fria e rápida. Eu nunca havia sequer beijado um outro homem além dele e com tudo aquilo eu estava confuso. O que fazer? Como agir? Algo estava errado e não dava para querer discutir relação com ele. Que experiência eu tinha com isso para definir o que era certo ou errado e poder exigir algo dele? O que eu tinha certeza apenas, era que eu já estava sofrendo. Começava a pensar que estar com um outro homem era tão complicado quanto não ter ninguém e lutar contra esses sentimentos e desejos. Estava uma droga pra falar a verdade e no tumulto de hipóteses, dúvidas e apego eu tentava levar minha rotina e esquecer um pouco o aperto no coração.
        Estava cochilando dentro da van que me levava todos os dias da faculdade até minha casa. Além de estudar na cidade vizinha e ter que suportar toda aquela longa distância todos os dias, meu azar era tanto que eu ainda era o último a chegar em casa. O motorista era praticamente meu vizinho. Isso complicava minha situação, caso desse algum furo e minha orientação sexual viesse a tona, mesmo que em suposições e fofocas. Meus pais não podiam imaginar que tinham um filho gay. E sobre eles, falarei mais a frente. Em um outro post. O lance é que em um certo dia, véspera da tal festa de aniversário, meu celular tocou e me arrancou da breve cochilada, a qual me referia no início do parágrafo. Surpresa! Número conhecido no visor e eu sem conseguir entender nem imaginar o motivo dele me ligar aquela hora, afinal depois das 22h, sempre seria  tarde para nos falarmos. Atendi discretamente para não aguçar a curiosidade de nenhuma outra pessoa que também tentava dormir no carro. Talvez dois minutos no máximo, foi  a duração da nossa conversa. O que ele disse:
"Oi. Tudo bem?" Como eu poderia responder que estava bem? Como ele podia me perguntar aquilo? Óbvio que não, mas não era hora de falar sobre isso. Pra mim, nem era hora de falar, depois do que ouvira dele aquela noite passada.
"Sim. Tudo bem." Respondi sem me estender e com curiosidade na voz.
"Então, estou de folga hoje. Onde você está?" Quanto mistério! O que estaria acontecendo? O que passou por minha cabeça aquele instante é que talvez ele estivesse outra vez na tal casa onde tivemos nossa fracassada noite de amor e queria que eu fosse pra lá novamente. Por dois segundos eu até me animei, mas em seguida ele destruiu meu devaneio.
"Amanhã é a festa de aniversário. Posso passar aí na sua casa quando você chegar? Prometi ao nosso amigo gay que o ajudaria com algumas coisas da festa. Queria que fosse comigo à casa dele."
Mesmo que eu tivesse um dia inteiro pra analisar eu conseguiria chegar a alguma conclusão do motivo daquela ligação. Claro que tinha algo por trás disso. Quase meia-noite o cara vai passar na minha casa para irmos a casa de outrem ajudar na organização de uma festinha de aniversário! E a família do garoto, não estaria dormindo? Iríamos incomodar. Nem um perfeito idiota acreditaria ou concordaria com aquilo.
"Ok. Chego em casa em uns dez minutos." Finalizei a conversa.
Nem preciso falar que perdi totalmente o sono. E dessa vez avisei minha mãe que não tinha hora pra voltar.
Desconfio que chegou na minha casa antes de mim. Mal entrei e já estava me chamando no portão.
Não comi, não tomei banho. Saí sem entender nada do que estava acontecendo. Mas entendi tudo mais tarde. Entendi tudo e perfeitamente.

Procura-se emprego

"Você nunca foi a Parada Gay? Não acredito!"
Meu primeiro amigo gay me olhou como se estivesse diante de um E.T.
Nunca estive sequer próximo a no mínimo cinco pessoas gays. Ou ao menos cinco pessoas assumidamente gays. Cada um, cuja orientação sexual era descoberta por mim, chocava. Mas era sensacional ver pessoas tão discretas, outras não tanto assim, orgulhosas e sem temer (aparentemente), não ter medo algum em ser o que eram. Bom, mas eu descobria essas pessoas aos poucos.
Junto ao convite para ir à Parada Gay em São Paulo no mês seguinte, recebi também convite para a festa de aniversário do meu primeiro amigo gay. Seria a oportunidade para definitivamente conhecer outras pessoas como eu. Aquele amigo realmente parecia popular. Devia conhecer muita gente e não senti medo nenhum de dar de cara com algum conhecido em qualquer um dos eventos. Me sentia forte e confiante. Tudo realmente era novidade e me encantava.
Da mesma maneira em que me sentia quase desesperado de tanta ansiedade, ficava cada vez mais triste e frustrado com meu relacionamento. Se pudesse ser chamado assim. Na verdade, apenas eu me sentia em um. Meu primeiro amor simplesmente sumira. Não mais o encontrava em casa quando me sobrava tempo de procurá-lo. Atordoado entre rotinas do trabalho e faculdade. Enquanto ele, segundo parentes que atendiam o telefone ou me recebiam mal à porta de sua casa, me diziam que estava na missa, na quadra jogando vôlei ou até em uma cidade vizinha com outros amigos também jogando bola. Dizia que precisava arrumar um emprego, mas não o via procurando. Me condenava por criticá-lo mentalmente em relação a isso. Não é fácil arrumar emprego e destruiria qualquer coisa que estivesse rolando entre nós se fosse cobrá-lo em relação a isso. Talvez eu estivesse realmente errado me sentindo no direito de falar qualquer coisa. E eu poderia tentar ajudá-lo. Sim, foi o que fiz. Conversando com algumas pessoas no meu trabalho (estágio), consegui uma entrevista para ele. Bastava aparecer no local (um restaurante), e dizer que era indicação. O emprego seria dele. Quase não consegui avisá-lo por causa da correria com trabalho acadêmico e prova aquele dia. Tive que deixar recado com alguém que mudou totalmente a maneira de me tratar na ligação quando mencionei a palavra emprego. Mas, havia dado um passo que talvez ele mesmo não estivesse dando.
"Ele não está. Foi ao shopping."
Foi o que ouvi quando liguei um certa noite em sua casa para saber o motivo dele não ter aparecido no local da entrevista. Fiquei chateado demais aquele dia. Tá legal, eu fiquei puto! Mas ainda assim, tentei telefonar dois dias depois e o que ouvi?
"Ele foi ao shopping."
Puta merda! O cara mora no shopping agora? Eu idiota, procurando emprego e ele no shopping, fazendo exatamente o quê? Muito estranho. Não sabia o que pensar. Mas me perguntava o tempo todo o que estaria acontecendo com a gente...
Ele sabia, mas quando conversamos outra vez por telefone, o que me enfurecia, não tocamos no assunto. Não citamos o penhasco que surgia entre nós. Uma conversa até rápida e apática se fossemos analisar o tempo que não nos viamos pessoalmente. Suficiente para descobrir que ele havia conseguido emprego e não conseguira me avisar. Desculpa esfarrapada. Consegui deixar recado e avisar sobre a vaga e ele só tinha telefone fixo. Meu celular não tocara em momento algum , mas foi melhor eu ficar quieto e simplesmente ouvi-lo dizer que estava trabalhando no cinema, dentro de um dos shoppings da cidade.
"Que legal."
Foi o que consegui dizer sem demonstrar o menor sinal de alegria. A conversa não durou muito tempo também. Antes de desligar avisou que não pretendia ir à Parada e talvez não fosse também à festa de aniversário devido aos horários puxados do trabalho.
"Ok." Finalizei outra vez sem consegui disfarçar minha frustração.