Resolvi pular alguns anos no tempo aqui no blog para falar sobre
um assunto que me causa um misto de revolta, compaixão e estresse. Dois na
verdade, o bullying e o concurso público. Foi em conversa com um amigo em uma
rede social esses dias que me lembrei desse episódio e resolvi contar o que penso sobre
isso. Ele acabou de prestar um concurso na cidade dele, cujo nome não me lembro
agora, mas também não vem ao caso. Estávamos trocando algumas experiências. Pois é, há
um tempo eu também fui tentar a sorte na vida de concurseiro. Espalhei pra todo
mundo que iria fazer a prova e já me sentia um funcionário público. Como se já
tivesse passado na prova. Não me preocupei em estudar nada nos quase dois meses
que tive para me preparar desde a inscrição e quando chegou a véspera bateu uma
dorzinha de barriga um pouco incômoda. A ansiedade não me deixou dormir direito
e tive que acordar muito cedo pra ir até a escola onde aplicariam a prova. Um
zumbi que mal conseguia pensar em outra coisa que não fosse a própria cama. A rua
estava cheia de gente se movimentando ansiosos de um lado para outro. No muro,
do lado de fora havia uma lista gigantesca com nomes e número das respectivas
salas que os candidatos deveriam procurar. Eu já sabia onde deveria ir, então
fiz cara de poucos amigos para quem parecia perdido em meio a tantos nomes e
números de inscrição. Alguém esticou um panfleto na porta e eu recusei. Olhei
rapidamente um cartaz que informava pra que lado deveria seguir para achar a
sala 001 e fui para a esquerda. Uma moça muito simpática e de sorriso largo,
apesar da hora, perguntou se podia me ajudar e irritado com seu bom humor
novamente recusei ajuda dizendo que estava indo para a sala um. Foi nesse
momento que comecei a perceber que o bullying, essa palavra relativamente nova
pra mim, está presente e dominante em quase todas as pessoas envolvidas em um
concurso público. A moça de sorriso largo me encarou com desdém e disse que eu estava
do lado errado. Me devolvendo a pouca cordialidade de antes. Agradeci e me
virei para o lado correto. Algumas pessoas paradas ali perto me olharam com
ares de gozação e ainda ouvi a mulherzinha comentar com alguém que havia uma
seta enorme no cartaz indicando o lado direito. Ok. Fui desagradável e ela
apenas me devolveu uma pitadinha de mau-humor.

Fui
o segundo a entrar na sala e quando percebi que poderia ter dormido meia hora a
mais fiquei mais irritado ainda. No edital estava escrito que era obrigatório
chegar com uma hora de antecedência. E lá estava eu, uma hora plantado,
esperando o restante das pessoas chegarem. Cada um que entrava já escancarava
sua personalidade. Só no jeito de andar até suas carteiras e lógico, pela
aparência. Percebi que a garota que já estava na sala era obviamente uma nerd extremamente
pontual. Óculos, cara de quem sofreu muita gozação na época do ensino médio e
uma forte concorrente a uma das vagas a qual eu pleiteava. O terceiro a entrar
foi um senhor com seus sessenta anos, aproximadamente. Já tinha cara de
funcionário público e era outro forte candidato. Aí foi a vez de entrar o
primeiro japonês. Não havia pensado na possibilidade de ter muitos japoneses tentando
também. Geralmente são inteligentes. Sofrem muito bullying no ensino
fundamental e principalmente no médio, quando não beijam ninguém e sempre são
vistos na biblioteca. Eu mesmo já chamei tanto eles de “Shing Ling”! Entrou a
negra típica com cara de quem já enfrentou muito racismo, o gay afeminado com
sobrancelhas finíssimas e andar de quem está na passarela, outro japonês, a
senhora com cara de dona de casa, a fashionista que também parecia ter vindo
direto da São Paulo Fashion Week, a gordinha de óculos, uma japonesa, outro
senhor de idade, um rapaz irritantemente gostoso, mas com cara de louco e de
repente a sala estava quase completa. Três pessoas certamente esqueceram ou
dormiram demais ou ganharam na mega sena e desistiram da prova. A fiscal
explicou os procedimentos e na hora do boa prova à todos, entra um atrasadinho.
Cara de playboy, topete perfeito e cara de marrento. “Carioca”, eu deduzi. A mulher
deu um rápido sermão e disse que só permitiria que ele fizesse por que ainda
não tínhamos autorização para abrir os cadernos de questões. O rapaz sofreu
bullying da velha e da fashionista que não disfarçou o riso. Prova difícil. Clima
tenso.
“Com base nos dados seguintes: 1+2x+3y, responda:
Para quê serve e qual a diferença entre a Controladoria Geral da União e o
Ministério Público Federal?”

Alguém abriu um pacote de salgadinho e começou a fazer barulho com a
embalagem. Jurava que era proibido comer durante a prova, mas, a dona de casa
não foi advertida. Devo ter sido o único também a não ir ao banheiro. Povo
estava com problemas urinários, só pode! Um dos japoneses chegou a ir três
vezes! Mais uma ida e eu pediria para que deixassem ele levar a prova pro
banheiro. Após o fim do período mínimo de permanência na sala, a metade vazou.
Eu ainda sofrendo com aquilo e as pessoas já terminando? A fashionista foi a
primeira a entregar. “Inteligente”, pensei comigo outra vez. “Desgraçada”,
conclui. E voltei às perguntas de economia e auditoria. A hora foi passando, as
carteiras ficando vazias ao meu redor e quando dei uns dez chutes no que eu não
fazia mesmo ideia das respostas, resolvi entregar e sumir dali. Deixei apenas
quatro pessoas ainda se matando e fui procurar algo para comer e diminuir um
pouco minha revolta por causa da fome. Eu tinha duas horas de intervalo. Exatamente duas
horas antes de ter que voltar para a sala e começar a segunda parte. Isso
mesmo, ainda havia uma segunda parte. Mais 25 questões e uma redação pra fazer.
Oi!
ResponderExcluirGostei do seu blog! Você aborda temas muito interessantes aqui.
E vi que você tem um link do meu blog aqui. Estou linkando o seu blog lá também.
Até mais!
Oi Leo , obrigado!
ExcluirBom saber que você gostou, fico feliz!
O link com teu blog é por que também acho o conteúdo bem interessante! Temas e textos muito bons!
Abraço do Bandoleiro! ;)