A chuva não demorou para cessar. Quando chegamos na esquina onde conversamos da outra vez, ainda pingava e resolvi acompanha-lo até sua casa para só então retornar à minha. Apesar de já estarmos bastante molhados, era possível ficar totalmente ensopado se qualquer um de nós fosse sem guarda-chuva. Andamos mais alguns metros e ele decidiu que já dava pra seguir sozinho. Fiquei analisando perplexo tudo que acontecera aquela noite e decidi não ir embora outra vez com dúvidas e sofrendo por causa dele. Perguntei a razão de ter me convidado para aquele programa no mínimo estranho na casa de alguém que sequer estava na cidade. Por quê? O que queria com tudo aquilo? Me machucar ainda mais? E antes de falar qualquer coisa, sorriu irônico. Aquilo me incomodou, me machucou. Meu primeiro amor disse então que talvez não tivesse sido uma boa ideia ter me chamado. Sua intenção era sim uma reaproximação. Queria ser meu amigo. Qualquer coisa que tivesse acontecido entre nós não aconteceria mais. Não teria continuidade por enquanto, porque ainda estava confuso. Os sentimentos dele ainda estavam bagunçados e não queria dar esperanças nem me fazer criar expectativas em relação a nós. Também não queria me ver sofrendo ou com raiva. Disse que eu era um cara bacana, e precisava da minha amizade. O que acontecera aquela noite fora um simples desencontro. Realmente quis me chamar para assistir o filme e não imaginava que nosso amigo não estivesse em casa. De qualquer forma, apesar do clima estranho entre nós, havia gostado. Era uma chance de podermos conversar, mesmo não tendo planejado nada daquilo que estávamos conversando.
A verdade é que enquanto ele falava eu só conseguia tentar encontrar o erro em mim. Onde havia errado pra tê-lo perdido? Apesar de estar escancarado que a confusão e incerteza estava só na cabeça dele. Fechei o guarda-chuva quando percebi que não chovia mais e me vi também um pouco trêmulo. Um nó na garganta. Vontade de beija-lo e dizer que precisava dele, mais que simplesmente o querer. Era a primeira vez que me apaixonava daquela maneira e queria poder ter a chance de viver aquilo mais intensamente. Não estava nem aí para qualquer outra pessoa que talvez estivesse no coração dele. Eu merecia uma chance. Segurei qualquer lágrima que teimasse em cair e me declarei. Outra vez. Falei tudo que estava sentindo por ele. Todo o amor que ainda me consumia e maltratava. Quase infartei quando ele passou na minha cara que nós mal havíamos terminado e eu já estava beijando o mundo na Parada Gay. Entendi tudo quando ouvi essa frase. Não havia beijado o mundo na Parada! E mesmo que tivesse beijado "o mundo", quem tomou os chifres fui eu. Quem fora enganado? Então quer dizer que além de chorar e sofrer, deveria também ficar me humilhando pra ele? Quem sumira, eu? Tentando sair de mocinho e me jogar o papel de vilão? Respirei fundo e segurei a vontade de começar uma discussão para tentar me defender. Não estava em condições emocionais para formular qualquer desculpa ou justificativa. Certeza da minha inocência e ingenuidade eu tinha de sobra! Mostrei o guarda-chuva e perguntei se queria levar ou preferia que ficasse comigo. Ele percebeu meu incômodo e disse que devolveria no dia seguinte.
"- Eu gosto de você cara! - Disse eu finalmente. - Mesmo com todos os meus e os seus erros. Gosto de você, mas gostar sozinho não é legal!"
"- Gosto de você também! Mas nesse momento de confusão, prefiro tentar entender meus sentimentos sozinho. E quero você como meu amigo."
A amizade deve ser guardada no lado esquerdo do peito. Zelada e protegida como à um diamante. Ela é mais valiosa que qualquer sentimento existente. Só tome cuidado pra não colocá-la próxima demais do amor. Você vai se foder no final! Vão querer sua amizade e seu amor que se dane!
O pior foi ter ouvido ele comparando nossa possível e desejada amizade com a das personagens no filme. Uma amizade que incluía também nosso amigo ausente. As três se conheceram, se uniram e criaram um laço muito forte e carinhoso. Quase vomitei nessa hora e me perguntei se ainda olharia na minha cara se o mandasse à merda...

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