O outro gay no partido não militava no movimento estudantil, mas estava sempre comigo nas reuniões de organização da secretaria GLBTT. Muito focado nos objetivos em comum. Porém, fora de discussões sérias, seu assunto mais constante eram homens, pintos e sexo. Não de maneira vulgar, mas as vezes me irritava tantas insinuações. Tinha um companheiro ao qual morava junto há algum tempo, mas estava sempre reclamando de atitudes e pensamentos do cara. Quando não estavam brigados e separados. O que também era um pouco comum. Seu parceiro não era oficialmente do partido, embora, de vez em quando aparecesse por lá por algum motivo. Geralmente nas festinhas e confraternizações que organizávamos.
Devia ser meados de julho, quando prepararam uma festa para arrecadar a grana de uma viagem. Alguns se preparavam para irem a um fórum de discussão sobre a ALCA. Assunto super em alta nessa época. E ainda sem conhecer a maioria das pessoas fui à tal festa. O companheiro de secretaria estava em viagem para tratar de problemas pessoais familiares e não pôde comparecer. Seu atual ex-marido provavelmente aproveitou sua ausência para aparecer por lá e com toda certeza provocar ciúmes e comentários posteriormente. Só havia três pessoas assumidamente gays e dentre elas, eu. Como a outra era uma mulher, quem acabou sendo a vítima dele? Passei a ser observado o tempo todo da cabeça aos pés. Olhares de desejo e conquista. Conversei com uma garota e expliquei que estava me sentindo mal com o clima. Nem sabia o que os dois eram depois de tanto rolo naquele relacionamento confuso. E sem parecer surpresa, ela me disse para aproveitar o momento. Fiquei sem entender muito bem se quis dizer para eu apenas flertar e aproveitar o estar sendo desejado ou se era pra eu aproveitar e ficar com o cara. Coração acelerou e fiquei ainda mais sem graça. Me entregaram um bilhetinho pequeno e dobrado várias vezes. Nem precisei pensar muito para descobrir de quem era. "Você é uma delícia". Era o que estava escrito. Tinha cara de safado e não era de se jogar fora. Mas sair com ele poderia ser um belo de um problema no futuro. Sem falar na minha virgindade... Estava mais que claro que ele só queria me comer!
Passei o máximo de tempo possível conversando com qualquer pessoa para me manter longe dele. Evitei seus olhares e me mantive em pânico, mas aparentemente tranquilo. Quando as pessoas começaram a ir embora, enquanto se despediam, o ex-marido do meu companheiro de partido se aproximou e puxou papo. Perguntou onde eu morava, idade e se morava com meus pais. Depois alguém que lhe daria carona o chamou e ele disse que eu também iria com eles. Tentei controlar meu desespero e disse que não precisava, mas ele me segurou pelo braço e quase me arrastou. "Vai de ônibus com uma carona aqui? Você mora perto e não custa nada." Não custava nada pra ele, mas quem estava dirigindo era outra pessoa. Para chegar na minha até passava pela casa dele, mas meu bairro era mais adiante. E desse jeito abrupto e sem tempo para recusa, fui praticamente sequestrado. Minha colega telefonou para saber onde eu estava e ainda muito sem graça, respondi que estava tudo bem e que ganhara carona.
O dono do carro nos deixou na esquina da casa dele e seguiu seu rumo. Agradeci e disse que iria até o ponto para pegar um outro ônibus até minha casa. Outra vez ele não deixou e me chamou para comer uma pizza na casa dele. Tentei argumentar que estava tarde apesar de ainda não passar das 20h. Ele então perguntou se eu estava com medo dele. Veio com um papo bem idiota de que não tem nada de mais comer pizza na casa de um amigo e não pega mal pra ninguém, afinal nós dois éramos solteiros...

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