Andava muito ocupado com minha militância ativa no movimento estudantil e criação da secretaria de gays e lésbicas do partido na minha cidade. Ainda tinha que estudar para as matérias da faculdade e me concentrar no trabalho. Até conciliava tudo direitinho, mas a política me ganhava em qualquer disputa de afazeres. Como no dia em que seguia para o trabalho normalmente quando o ônibus teve que mudar sua rota normal por que estava acontecendo um protesto de estudantes no centro da cidade. Ouvi o barulho e não entendi do que se tratava a princípio. Só quando disseram que era algum tipo de protesto lembrei que realmente aconteceria. As pessoas resmungavam e maldiziam os baderneiros que atrapalhavam e atrasavam suas rotinas. Enquanto eu vibrava. Adrenalina tomando conta de mim por inteiro.
Ainda havia tempo antes de dar a hora de entrar no trabalho. Depender do transporte público sempre foi terrível e, ou chegava cedo demais ou atrasado. Não pensei duas vezes antes de saltar na parada seguinte e correr até o protesto que tomava conta de uma das principais avenidas. Encontrei algumas pessoas do partido e muita gente desconhecida também aderia à caminhada. Alguém me passou uma das grandes bandeiras do partido e segui atrás do carro de som empolgado. Segui com o protesto por uns 800 metros e entreguei a bandeira para alguém. Não poderia seguir até a câmara dos vereadores, destino final da manifestação. Não havia mais tempo. Segui até outro ponto de ônibus e instantes depois já estava chegando ao trabalho. Apenas a recepcionista percebeu meu atraso de quinze minutos. Fui direto para minha mesa e fingi estar ali há muito tempo, atolado de trabalho.
Somente no dia seguinte ela veio até mim com ar irônico e superior, questionando onde mesmo eu havia me atrasado. Respondi com outra pergunta. O que ela estava querendo saber exatamente? Quem deve, teme. E fiquei pálido quando disse que havia uma foto minha na capa do jornal da cidade. O jornal que meu chefe lia todos os dias! Corri até a recepção para ver a tal foto. Enquanto procurava ela começou a rir do meu lado. Olhei a primeira página e não consegui me achar a princípio. Só depois percebi que ela estava mesmo pregando uma peça e me assustando. A foto mostrava um rapaz logo atrás do carro de som, segurando uma bandeira partidária, porém, era quase impossível ligar aquela figura da foto desfocada à minha pessoa. Só voltei a ficar tranquilo de verdade no outro dia, quando a nova edição chegou e percebi realmente que meu chefe não havia percebido nada daquela semelhança. Daquela mera coincidência.

Uau, isso sim é uma crônica forte! Sou um militante também em prol dos direitos do ser humano e da igualdade e acho que não deveria haver discriminação entre as pessoas, principalmente em relação a sexualidade. Hoje mesmo li um cartaz da Parada que dizia assim: "amo quem eu quiser". Essa frase é a certeza de que a liberdade não é uma escolha, mas um direito, uma condição!
ResponderExcluirSuas narrativas são espetaculares! Adoro cada uma delas! Parabéns!
Um forte abraço!
Muito obrigado Victor!
ExcluirDiria também que a sociedade só eliminará a homofobia quando esses cartazes como o da Parada estiverem na mente de cada um, principalmente em quem está com bandeira do arco-íris nas Avenidas se dizendo militantes, mas preocupado apenas em beijar na boca e sem saber sequer o tema do evento.
Sou teu fã!
Abração!